Exame de fundo de olho: o que ele revela sobre a sua saúde

O pedido às vezes nem vem do oftalmologista. Vem do clínico, do endocrinologista, do cardiologista, do obstetra: “faça um fundo de olho e me traga o resultado”. E a pergunta que se forma é razoável — por que outro médico quer olhar dentro do meu olho se a minha visão está boa?

Porque o fundo do olho é o único lugar do corpo humano onde se enxerga um vaso sanguíneo vivo, por dentro, sem cortar nada. Não há exame comparável. Uma lâmina de luz e uma lente bastam para ver artérias, veias, tecido nervoso e o próprio nervo óptico funcionando em tempo real.

O que o exame de fundo de olho mostra?

O exame avalia a retina, a mácula, o nervo óptico e os vasos sanguíneos que os irrigam. Além de doenças oculares, revela repercussões de condições sistêmicas — hipertensão arterial, diabetes, alterações da circulação e aumento da pressão intracraniana. É por isso que costuma ser solicitado por médicos de outras especialidades.

A janela que nenhum outro exame abre

Pense no que um médico consegue avaliar dos seus vasos sem exame de imagem: pressão arterial, pulso, exames de sangue. Tudo indireto — números que sugerem o estado da circulação sem mostrá-la.

No fundo de olho, a observação é direta. Dá para ver o calibre das artérias, o modo como elas cruzam as veias, se há extravasamento de sangue ou de material lipídico, se há áreas mal irrigadas. E, como os vasos da retina compartilham características anatômicas e de desenvolvimento com os vasos do cérebro, o que se observa ali informa sobre o que está acontecendo em outro lugar.

O dado que dimensiona isso

Um estudo populacional acompanhou 2.907 pessoas com hipertensão, entre 50 e 73 anos, sem diabetes, AVC ou doença coronariana no início. Todas fizeram avaliação da retina. O resultado: 48,4% não tinham sinais de retinopatia, 46,6% tinham sinais leves e 5% sinais moderados.

Ao longo do acompanhamento, quem apresentava retinopatia hipertensiva teve risco de AVC duas a três vezes maior. Achados específicos — hemorragias, microaneurismas e exsudatos algodonosos — associaram-se a risco duas a quatro vezes maior de AVC em três anos, mesmo depois de ajustar para pressão arterial, tabagismo e colesterol.

E há o detalhe que dá utilidade prática ao achado: esse risco aumentado permaneceu inclusive entre pacientes com a pressão arterial bem controlada. Ou seja, o fundo de olho mostra algo que o aparelho de pressão não mostra — o efeito acumulado sobre os pequenos vasos, que nem sempre acompanha os números do consultório.

O que se procura, condição por condição

Condição O que aparece no fundo de olho O que muda
Hipertensão arterial Estreitamento de arteríolas, alteração nos cruzamentos com veias, hemorragias, exsudatos Sinaliza repercussão em órgão-alvo; informação para o médico que trata a pressão
Diabetes Microaneurismas, hemorragias, exsudatos, áreas isquêmicas Define estágio e periodicidade — ver a retinopatia diabética
Aumento da pressão intracraniana Inchaço do disco óptico Achado que exige investigação neurológica — não é assunto oftalmológico isolado
Alterações circulatórias Obstruções vasculares, êmbolos visíveis dentro do vaso Pode indicar origem cardíaca ou carotídea; encaminhamento
Glaucoma Escavação e assimetria do nervo óptico Compõe o diagnóstico — ver exame de glaucoma
Doenças da retina Alterações da mácula, rasgaduras, descolamentos Conduta oftalmológica própria — ver descolamento de retina

Repare que, em quatro das seis linhas, o que o exame muda não é a conduta do oftalmologista. É a de outro médico.

Como o exame é feito

É simples e indolor. Aplica-se um colírio que dilata a pupila — a “janela” precisa estar aberta —, espera-se de 20 a 40 minutos, e então o médico examina o interior do olho com uma fonte de luz e lentes, pedindo que você olhe em direções diferentes. A luz é forte e incômoda por alguns instantes; não há contato doloroso.

Depois, a visão fica embaçada e a luz incomoda por algumas horas, o que desaconselha dirigir na volta. A logística dessa etapa, incluindo quanto tempo reservar, está detalhada em o mapeamento de retina, que é a avaliação com varredura completa, incluindo a periferia.

Quando há necessidade de medir estruturas com precisão — a espessura da mácula, por exemplo —, o exame pode ser complementado por OCT, disponível na clínica, que produz imagem em camadas da região central.

Quem deve fazer, e com que frequência

  • Diabetes: avaliação já no momento do diagnóstico do tipo 2 e, em geral, anualmente depois. É o grupo em que o exame mais muda desfecho — e vale lembrar que o cristalino também é afetado, tema de diabetes e catarata.
  • Hipertensão arterial: conforme orientação do médico assistente, e especialmente quando há dificuldade de controle ou suspeita de repercussão sistêmica.
  • Gestação: frequentemente solicitado quando há diabetes ou hipertensão associadas, porque essas condições podem repercutir na retina durante a gravidez.
  • Miopia alta: pela fragilidade da retina periférica.
  • Adultos em geral: como parte da avaliação periódica, nos intervalos descritos em a consulta de rotina em Campinas.

O que acontece quando o achado não é ocular

Aqui está o ponto que define a utilidade real deste exame, e ele diz respeito ao que se faz com o resultado.

Quando a Dra. Flávia Keiko Ichida encontra sinais de repercussão sistêmica — alterações vasculares compatíveis com hipertensão mal controlada, achados sugestivos de embolia, inchaço do disco óptico —, a conduta não é oftalmológica. É comunicar o achado e encaminhar ao médico que trata a condição, com a descrição do que foi visto.

Isso decorre de como ela entende o papel da especialidade: oftalmologia clínica completa, e não apenas o segmento cirúrgico. O exame que o cardiologista pediu não existe para gerar um retorno na agenda do oftalmologista — existe para devolver ao cardiologista uma informação que ele não conseguiria de outro jeito. Reter esse achado, ou tratá-lo como assunto interno da consulta oftalmológica, seria inverter a finalidade do exame.

Quando o fundo de olho é urgente

A maior parte dos pedidos é de rotina. Mas alguns quadros exigem exame no mesmo dia: perda súbita de visão; sombra ou cortina avançando no campo visual; flashes de luz nos olhos com aumento de pontos flutuantes; ou dor de cabeça junto com visão embaçada intensa e persistente, sobretudo se acompanhada de náusea.

Contato pelo WhatsApp do Instituto de Olhos Campinas — (19) 99193-2057 — ou atendimento oftalmológico urgente fora do horário.

Perguntas frequentes

O exame de fundo de olho dói?

Não. O colírio pode arder por alguns segundos e a luz do exame é incômoda por instantes, mas não há dor nem contato com o olho durante a observação.

Preciso ir acompanhado?

É bastante recomendável. A dilatação embaça a visão e aumenta a sensibilidade à luz por várias horas, o que desaconselha dirigir na volta.

Dá para fazer sem dilatar a pupila?

Alguns equipamentos permitem avaliar a região central sem dilatação, mas a avaliação completa, incluindo a periferia, exige pupila dilatada. A decisão depende do objetivo do exame.

Grávida pode fazer?

Sim, e é frequentemente indicado quando há diabetes ou hipertensão associadas à gestação. A escolha do colírio considera a gravidez, que deve ser informada no agendamento e na consulta.

O resultado sai na hora?

A avaliação é feita e interpretada durante a própria consulta. O que se entrega ao médico solicitante é a descrição dos achados, com a conduta sugerida quando houver.

Fundo de olho normal descarta diabetes ou hipertensão?

Não. Ele mostra se já existe repercussão nos vasos da retina, o que não é o mesmo que diagnosticar a doença. Exame normal é uma boa notícia sobre o órgão-alvo, não um resultado sobre a doença em si.

Com que frequência repetir se está tudo normal?

Depende do motivo do pedido. Em diabetes, costuma ser anual mesmo com exame normal; em avaliação de rotina, segue os intervalos por faixa etária e fatores de risco.

O exame que o outro médico pediu

Se você chegou aqui por causa de um pedido do clínico, do endocrinologista ou do obstetra, a explicação é essa: eles querem ver uma coisa que só se vê pelo olho. Não é sobre a sua visão — é sobre os seus vasos, e sobre o que eles vêm sofrendo em silêncio.

Agende sua avaliação com a Dra. Flávia Keiko Ichida no Instituto de Olhos Campinas, leve o pedido e os exames recentes, e reserve tempo para a dilatação. O resultado volta para quem pediu — e, com alguma frequência, muda o que ele faz a seguir.

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Conteúdo revisado pela Dra. Flávia Keiko Ichida, especialista em Oftalmologia — CRM 111925 / RQE 47907.

Referências

  1. Ong YT, Wong TY, Klein R, et al. Hypertensive retinopathy and risk of stroke. Hypertension. 2013;62(4):706-711.
  2. Baker ML, Hand PJ, Wang JJ, Wong TY. Retinal signs and stroke: revisiting the link between the eye and brain. Stroke. 2008;39(4):1371-1379.
  3. Hypertensive retinopathy can predict stroke: a systematic review and meta-analysis based on observational studies. 2024.
  4. American Academy of Ophthalmology. Comprehensive Adult Medical Eye Evaluation Preferred Practice Pattern.
  5. National Eye Institute. Get a Dilated Eye Exam.

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