Dificuldade para enxergar no escuro: quando é idade e quando é sinal da retina

O filme já tinha começado. Você fica parado no alto da escada da sala de cinema, esperando os degraus aparecerem, enquanto a pessoa que veio com você já desceu e achou as poltronas. Em casa, a cena se repete de outro jeito: a luz do quarto se apaga e, por um bom tempo, o corredor é só um borrão escuro. A pergunta vem junto: isso é a idade chegando ou é alguma coisa no olho — e quanto tempo de espera ainda é normal?

Todo mundo enxerga pior no escuro; o olho humano foi feito para isso. O que muda de pessoa para pessoa, e ao longo dos anos, é quanto tempo ele leva para trocar de modo — e é nesse tempo que mora a informação.

Dificuldade para enxergar no escuro: o que pode ser

Dificuldade para enxergar no escuro (nictalopia) é demorar a se adaptar quando a luz diminui ou enxergar muito menos do que antes em ambientes pouco iluminados. Pode vir do envelhecimento natural da retina, de falta de vitamina A, de doenças hereditárias da retina ou ser um sinal precoce de degeneração macular. Ofuscamento por faróis e lâmpadas é outra queixa, ligada mais ao cristalino e à superfície do olho.

Por que o olho demora para se adaptar ao escuro

A retina tem dois tipos de células que captam luz. Os cones trabalham com luz forte, enxergam cores e detalhes. Os bastonetes trabalham na penumbra e são muito mais sensíveis — mas só depois de “recarregados”.

Funciona como uma bateria. Os bastonetes usam um pigmento que a luz forte gasta. Quando você entra num lugar escuro, esse pigmento precisa ser refeito, e a matéria-prima é um derivado da vitamina A que vai e volta entre a retina e a camada de sustentação logo atrás dela. Enquanto essa recarga não acontece, quem trabalha são os cones, que no escuro quase não enxergam. Os minutos parado no alto da escada são o tempo da recarga.

Essa camada de sustentação é justamente uma das que mais mudam com a idade — e é a mesma onde começa a degeneração macular relacionada à idade (DMRI). Por isso a velocidade de adaptação ao escuro deixou de ser vista só como “coisa da idade” e passou a ser estudada como um termômetro da saúde da retina.

Quando demorar no escuro pode ser um aviso da retina

Um estudo publicado na revista Ophthalmology mediu a adaptação ao escuro em 325 pessoas com 60 anos ou mais, todas com a mácula normal no exame. Quem tinha retina saudável e adaptação normal levava, em média, 9 minutos para os bastonetes assumirem; o grupo com adaptação lenta, 15 minutos. Três anos depois, 21% dos que tinham adaptação lenta haviam desenvolvido sinais iniciais de DMRI no olho testado, contra 10% dos que tinham adaptação normal — cerca de duas vezes mais, já descontados idade e tabagismo.

Esse número precisa ser lido com cuidado. Ele não quer dizer que quem demora no escuro tem degeneração macular: quatro em cada cinco pessoas com adaptação lenta não desenvolveram a doença no período. Quer dizer que a queixa merece entrar na consulta, em vez de ser descartada como idade. E que, quando aparece, vale examinar a mácula — as formas e o ritmo da doença estão em DMRI seca ou úmida.

Três queixas diferentes sob a mesma frase

“Não enxergo no escuro” costuma esconder uma de três situações, e cada uma aponta para um lugar diferente:

  • O escuro demora. Você acaba enxergando, mas leva muito mais tempo do que antes ou do que quem está ao lado. Aponta para a recarga dos bastonetes: retina, vitamina A.
  • A luz atrapalha. No escuro em si você se vira, mas faróis, postes e telas ofuscam, com halos ao redor. Aponta para a dispersão da luz no cristalino ou na superfície do olho — assunto de dificuldade para dirigir à noite e de halos de luz.
  • O lado some. No escuro você esbarra em portas e móveis que estavam ao lado. Aponta para perda do campo de visão periférico, que a penumbra deixa mais evidente.

Separar as três antes da consulta já encurta o caminho: a catarata costuma se apresentar mais como ofuscamento do que como demora para se adaptar, e quem se queixa da segunda precisa que o exame olhe também para a retina, não só para o cristalino.

O que pode estar por trás e o que fazer

Situação O que pode estar por trás O que fazer
Acima dos 60, demora mais do que antes para enxergar quando a luz apaga, de resto bem Envelhecimento da retina; às vezes, sinal precoce de alteração na mácula Consulta com exame da mácula — sem urgência, mas sem deixar para o ano que vem
Faróis e lâmpadas ofuscam, com halos Cristalino (catarata) ou superfície do olho Consulta eletiva com exame do cristalino e da córnea
Piorou no escuro depois de cirurgia bariátrica, doença do intestino, fígado ou pâncreas, ou dieta muito restrita Falta de vitamina A — reversível quando corrigida a tempo Consulta em breve e avisar o médico que acompanha a cirurgia ou a doença; não tomar vitamina A por conta própria
Enxerga mal no escuro desde a infância ou juventude, esbarra nas coisas ao lado, casos na família Doença hereditária da retina, como a retinose pigmentar Consulta para avaliação completa da retina e do campo de visão
Começou depois de um colírio ou remédio novo Alguns colírios contraem a pupila e reduzem a luz que entra no olho Levar a lista de remédios à consulta; não suspender por conta própria
Escureceu de repente e não clareou, sombra ou cortina que avança, flashes com chuva de pontos pretos Pode ser descolamento de retina ou oclusão de vaso Avaliação no mesmo dia — WhatsApp (19) 99193-2057; fora do horário, pronto-socorro oftalmológico

O que a consulta procura

No escuro, a pergunta não é se você enxerga pior — todo mundo enxerga. É quanto tempo leva, o que exatamente falta e desde quando. Esse é o raciocínio que conduz a consulta com a Dra. Flávia Keiko Ichida, no Instituto de Olhos Campinas: começar pela descrição de qual das três queixas é a sua, e só então decidir onde o exame precisa olhar com mais atenção.

Com a pupila dilatada, a avaliação examina o cristalino — a catarata está entre as áreas de atuação da Dra. Flávia — e a retina inteira. O OCT mostra a mácula em camadas, onde ficam as primeiras alterações da degeneração macular, e o mapeamento de retina mostra a periferia, onde as doenças hereditárias costumam começar. Os dois ficam no mesmo endereço. Quando a causa está na retina, o acompanhamento segue a linha da retina clínica em Campinas.

Os minutos no alto da escada

Os minutos parado no alto da escada do cinema não são só idade nem necessariamente doença: são o tempo que a sua retina leva para recarregar. Se esse tempo cresceu, se você passou a esperar bem mais do que quem está ao seu lado, agende a avaliação com a Dra. Flávia Keiko Ichida — e troque o “deve ser a idade” por um exame que mostra o que a sua retina está fazendo no escuro.

Agendar consulta com a Dra. Flávia Keiko Ichida

Perguntas frequentes sobre dificuldade para enxergar no escuro

Comer cenoura melhora a visão no escuro?

Só se faltar vitamina A no organismo, o que é incomum em quem tem alimentação variada. Para quem já tem o suficiente, comer mais não acelera a adaptação ao escuro. E vitamina A em dose alta, em suplemento, pode fazer mal ao fígado — só deve ser usada com indicação médica.

Existe um exame que mede a adaptação ao escuro?

Existe um aparelho que mede o tempo de adaptação, usado principalmente em pesquisa e em centros específicos, mas ele não é exame de rotina. No próprio estudo citado, o teste deixou de detectar dois em cada três casos que evoluíram para DMRI, e os autores concluíram que ele não serve para rastreio. Na prática, quem orienta a conduta é o exame da mácula e da retina.

A cirurgia de catarata melhora a visão no escuro?

Quando a queixa principal é o ofuscamento causado pelo cristalino opaco, a cirurgia costuma ajudar. Ela não muda, porém, a velocidade com que a retina se adapta ao escuro. Por isso, antes de atribuir tudo à catarata, a avaliação examina também a retina. O que é a catarata e como ela evolui está em catarata.

Como evitar tropeços e quedas em casa à noite?

Deixe uma luz fraca acesa no corredor e no banheiro, mantenha um interruptor ou abajur ao alcance da cama e, ao levantar de madrugada, espere alguns segundos antes de andar. Retire tapetes soltos do caminho. Essas medidas não tratam a causa, mas reduzem o risco enquanto a avaliação não acontece.

Enxergar mal no escuro é sinal de glaucoma?

Não é o sinal típico. O glaucoma costuma ser silencioso no começo e afeta primeiro a visão lateral, sem que a pessoa perceba. Se a dificuldade no escuro vem com esbarrões em objetos ao lado, ou se há glaucoma na família, vale incluir o exame do nervo óptico — os sinais estão em sintomas de glaucoma.


Conteúdo revisado pela Dra. Flávia Keiko Ichida, especialista em Oftalmologia — CRM 111925 / RQE 47907.

Referências

  1. Owsley C, McGwin G Jr, Clark ME, et al. Delayed rod-mediated dark adaptation is a functional biomarker for incident early age-related macular degeneration. Ophthalmology. 2016;123(2):344-351.
  2. American Academy of Ophthalmology. What Is Vitamin A Deficiency? aao.org
  3. National Eye Institute. Retinitis Pigmentosa. nei.nih.gov
  4. Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) — cbo.com.br

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