Oclusão venosa da retina: o que é e por que os meses seguintes importam
Foi ao acordar que a metade de baixo da visão do olho esquerdo apareceu embaçada, como um vidro manchado. Não doía. No atendimento, depois de dilatar a pupila, veio o diagnóstico com uma palavra que assusta: trombose de uma veia do olho — no laudo, “oclusão de ramo venoso da retina”. E, junto com o alívio de ter uma explicação, as perguntas: isso é um derrame no olho? Vou perder a visão desse lado? E o outro olho?
O susto do primeiro dia é compreensível. Mas o que define como esse olho vai ficar raramente está decidido no dia do diagnóstico: está nos meses seguintes, e em duas perguntas que os exames de revisão respondem.
O que é oclusão venosa da retina?
Oclusão venosa da retina é o bloqueio de uma veia que drena o sangue da retina. Com a saída obstruída, o sangue se acumula, extravasa e a retina incha. Quando a obstrução está num ramo da veia, só uma parte da visão é afetada — oclusão de ramo; quando está na veia central, junto ao nervo óptico, o olho inteiro é atingido — oclusão de veia central. Em geral não dói.
Veia não é artéria: por que o prazo é outro
Quem leu sobre perda de visão súbita sabe que existe uma emergência medida em horas: a oclusão da artéria central da retina, tratada como uma forma de AVC. A oclusão venosa é outro problema. Na artéria, o sangue deixa de chegar; na veia, o sangue chega mas não consegue sair. O tratamento não depende de uma janela de poucas horas.
Isso não quer dizer que dá para esperar em casa: quem perdeu visão de repente não tem como saber sozinho se o problema é na artéria ou na veia, e perda súbita sempre pede avaliação imediata. Este texto é para o momento seguinte, com o diagnóstico de oclusão venosa já feito.
Por que uma veia da retina entope
Na retina, artérias e veias se cruzam muitas vezes, e em quase todos os cruzamentos a artéria passa por cima da veia, envolvidas pela mesma bainha de tecido. Quando a parede da artéria endurece — com os anos, a pressão alta, o colesterol —, ela aperta a veia no cruzamento, o fluxo fica lento e se forma o coágulo. Por isso a oclusão de ramo afeta só um setor da visão.
Na oclusão da veia central, o aperto acontece na saída do olho, onde a veia atravessa a estrutura em forma de peneira por onde passa o nervo óptico. Ali pesam o mesmo endurecimento da artéria vizinha e também a pressão dentro do olho.
Os números confirmam esse mecanismo. Uma análise de 15 estudos populacionais, publicada na Ophthalmology em 2010, estimou cerca de 16 milhões de adultos com oclusão venosa no mundo, e as oclusões de ramo são mais de cinco vezes mais comuns que as da veia central. Numa meta-análise de 2019, a hipertensão arterial foi o fator de risco mais forte, com chance 2,8 vezes maior — o tema tem página própria em pressão alta e visão. E outra meta-análise, de 15 estudos, encontrou chance quatro vezes maior em quem tem glaucoma, e seis vezes maior para a oclusão da veia central.
As duas perguntas que decidem o futuro desse olho
A oclusão é o evento. O que se acompanha e se trata são as suas consequências, e elas são duas:
- A mácula está inchada? O líquido que extravasa pode se acumular no centro da retina, a região da leitura. Esse edema é a principal causa de visão ruim depois de uma oclusão, e quem o mede é o OCT.
- A retina está recebendo sangue suficiente? Quando áreas grandes ficam sem circulação, a retina “pede” vasos novos. Esses vasos nascem frágeis, podem sangrar e, se crescerem na íris e no ângulo de drenagem do olho, bloqueiam a saída do líquido e causam um glaucoma difícil de controlar, o glaucoma neovascular.
A segunda pergunta é a que explica por que os retornos não podem ser deixados para depois. O Central Vein Occlusion Study acompanhou 725 pacientes com oclusão da veia central por três anos. Entre os olhos que começaram com boa circulação, 15% passaram a ter falta de sangue nos primeiros quatro meses, e 34% ao fim de três anos. Vasos novos na íris ou no ângulo apareceram em 16% dos olhos — 35% dos que já começaram com pouca circulação e 10% dos que começaram bem. A piora foi mais rápida nos primeiros meses, mas não parou depois deles.
Nas oclusões de ramo, o cenário costuma ser mais favorável: segundo a revisão da Academia Americana de Oftalmologia, de 50% a 60% dos pacientes terminam com visão de 20/40 ou melhor mesmo sem tratamento.
| Situação | O que costuma significar | O que fazer |
|---|---|---|
| Oclusão de ramo, mácula seca no OCT | Quadro com boa chance de estabilizar; o sangue é reabsorvido aos poucos | Retornos no intervalo combinado; controle da pressão arterial com o clínico |
| Oclusão de ramo com edema na mácula | Visão central afetada pelo líquido | Avaliar tratamento do edema, decidido pelo OCT e pela visão |
| Oclusão da veia central com boa circulação | Pode se manter assim, mas um terço passa a ter falta de sangue em três anos | Não pular revisões, sobretudo nos primeiros meses; avisar se a visão piorar |
| Oclusão da veia central com pouca circulação | Maior risco de vasos novos na íris e no ângulo | Revisões próximas, com exame da íris e do ângulo (gonioscopia) e medida da pressão do olho |
| Diagnóstico de glaucoma ou pressão do olho alta | Fator de risco para a oclusão e para o outro olho | Manter o tratamento do glaucoma em dia e a pressão na meta |
| Olho vermelho e dolorido, visão que piora semanas ou meses depois da oclusão; ou perda súbita no outro olho | Pode ser pressão do olho subindo por vasos novos, ou uma nova oclusão | Avaliação no mesmo dia: WhatsApp (19) 99193-2057; fora do horário, pronto-socorro oftalmológico — ver oftalmologista urgente em Campinas |
Como se trata
Não existe remédio que desentupa a veia depois que a oclusão se instalou. O tratamento é dirigido às consequências: quando há edema na mácula, a primeira linha hoje são injeções de medicamento dentro do olho, repetidas conforme a resposta medida no OCT; quando surgem vasos novos, o laser na retina reduz o estímulo que os faz crescer. A indicação depende do caso, e muitas oclusões de ramo sem edema só precisam de acompanhamento.
Ao mesmo tempo, o corpo entra na conversa. Como a oclusão costuma refletir o estado dos vasos, vale rever com o clínico ou o cardiologista a pressão arterial, a glicemia e o colesterol. Remédios que mexem com o sangue não se começam nem se suspendem por conta própria: a decisão considera o corpo inteiro.
O olho que acompanha glaucoma, e o outro olho
A Dra. Flávia Keiko Ichida atua em glaucoma clínico, e é por esse lado que a oclusão venosa a interessa duas vezes: o glaucoma aumenta o risco de oclusão, e a oclusão pode terminar em glaucoma. Por isso, depois de uma oclusão, a revisão não olha só a retina. Olha a pressão do olho, a íris antes de dilatar a pupila e o ângulo de drenagem, onde os vasos novos podem surgir antes de qualquer sintoma. No Instituto de Olhos Campinas, o OCT, o mapeamento de retina, a gonioscopia e a medida da pressão ficam no mesmo endereço da consulta, e o acompanhamento segue a linha da retina clínica em Campinas.
O raciocínio clínico que organiza essas revisões: o exame do diagnóstico mostra onde a veia entupiu; as revisões dizem se a mácula está secando e se a retina continua recebendo sangue — e cada resposta tem o seu exame e o seu prazo.
O outro olho também faz parte do plano. Segundo a mesma revisão da Academia Americana de Oftalmologia, ter uma oclusão de ramo num olho eleva para 7% a 10% o risco de uma oclusão no outro. Controlar a pressão arterial e a do olho é a parte desse risco ao alcance do paciente.
A palavra trombose no laudo
A palavra trombose no laudo assusta porque parece encerrar a história do olho no dia em que foi escrita. Não encerra. Ela abre um período em que a mácula, a circulação da retina e a pressão do olho são medidas de novo, e cada achado tem uma conduta. Se você recebeu esse diagnóstico, leve o laudo e os exames à consulta com a Dra. Flávia Keiko Ichida para transformar a palavra do primeiro dia em um calendário de revisões que proteja os dois olhos.
Agendar consulta com a Dra. Flávia Keiko Ichida
Perguntas frequentes sobre oclusão venosa da retina
O sangue que apareceu no fundo do olho vai sumir?
As hemorragias da oclusão costumam ser reabsorvidas aos poucos, ao longo de semanas a meses. Mas o sangue sumir não significa que o olho está bem: a visão depende da mácula sem inchaço e da circulação da retina, que é o que as revisões conferem.
Preciso tomar AAS ou anticoagulante depois de uma oclusão venosa?
Não é uma decisão para tomar por conta própria, nem só pelo olho: depende do restante da saúde e cabe ao clínico ou ao cardiologista, com as informações do exame oftalmológico. Quem já usa esses remédios não deve suspendê-los sem orientação.
Uma pessoa jovem pode ter oclusão de veia da retina?
Pode, embora seja muito mais comum depois dos 55 anos. Quando acontece em alguém jovem, sem pressão alta, diabetes ou glaucoma, a investigação costuma ir além do olho e incluir exames de coagulação e de inflamação, conversados com o clínico.
Posso operar catarata depois de ter tido uma oclusão venosa?
Em geral sim, mas com planejamento. A mácula precisa ser avaliada pelo OCT antes, porque um olho que já teve edema tem mais chance de voltar a inchar depois da cirurgia, e a expectativa de visão final depende do quanto a retina ficou preservada. Os detalhes da cirurgia estão em cirurgia de catarata em Campinas.
A visão embaçada desse olho atrapalha dirigir?
Depende de quanto o outro olho enxerga e de qual parte da visão foi afetada. Uma oclusão de ramo pode passar despercebida com os dois olhos abertos; por isso a avaliação mede cada olho separadamente e orienta caso a caso.
Conteúdo revisado pela Dra. Flávia Keiko Ichida, especialista em Oftalmologia — CRM 111925 / RQE 47907.
Referências
- The Central Vein Occlusion Study Group. Natural history and clinical management of central retinal vein occlusion. Archives of Ophthalmology. 1997;115(4):486-491.
- Rogers S, et al. The prevalence of retinal vein occlusion: pooled data from population studies from the United States, Europe, Asia, and Australia. Ophthalmology. 2010;117(2):313-319.
- Song P, et al. Global epidemiology of retinal vein occlusion: a systematic review and meta-analysis of prevalence, incidence, and risk factors. Journal of Global Health. 2019;9(1).
- Yin X, et al. Association of glaucoma with risk of retinal vein occlusion: a meta-analysis. Acta Ophthalmologica. 2019.
- American Academy of Ophthalmology. EyeWiki: Branch Retinal Vein Occlusion; Central Retinal Vein Occlusion. eyewiki.org
- Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) — cbo.com.br
