Tela de Amsler: como fazer o teste da mácula em casa

A folha quadriculada está presa na porta da geladeira, com um ímã, desde a última consulta. A orientação foi simples: olhar para o ponto do meio, um olho de cada vez, todos os dias. Algumas semanas depois, surgem as dúvidas que ninguém anotou: aquela linha do canto, um pouco ondulada, sempre foi assim? E, se a folha parece normal, ainda preciso ir à revisão?

A tela de Amsler é uma das ferramentas mais simples da oftalmologia, e justamente por isso é fácil usar errado — ou esperar dela mais do que ela entrega.

O que é a tela de Amsler?

A tela de Amsler é um quadriculado com um ponto no centro, usado para testar a mácula em casa. Olhando fixo para o ponto, com um olho de cada vez, a pessoa percebe se alguma linha ficou ondulada, borrada, escura ou apagada. É indicada principalmente para quem tem degeneração macular relacionada à idade (DMRI) ou drusas grandes, para notar cedo uma mudança na visão central.

Tela de Amsler. Para o teste do dia a dia, o ideal é imprimir esta página e usar sempre a mesma folha, à mesma distância.

Como fazer o teste, passo a passo

As orientações da Academia Americana de Oftalmologia são estas, uma vez por dia:

  1. Use os óculos que você normalmente usa para ler e escolha um lugar bem iluminado.
  2. Segure a tela a cerca de 30 a 38 centímetros do rosto.
  3. Cubra um dos olhos.
  4. Olhe diretamente para o ponto central com o olho descoberto e mantenha o olhar fixo nele.
  5. Sem tirar os olhos do ponto, repare com a visão de canto se todas as linhas continuam retas, ou se alguma linha ou área parece borrada, ondulada, escura ou em branco.
  6. Repita com o outro olho.

Os dois olhos abertos ao mesmo tempo não servem para o teste: a visão de um olho completa a do outro, e uma alteração pequena passa despercebida.

Por que um quadriculado consegue mostrar um problema na mácula

A mácula funciona como a parte central de uma tela de cinema: para a imagem sair reta, ela precisa estar lisa. Quando aparece líquido embaixo dela, ou quando algo puxa ou franze a sua superfície, as células que enxergam saem do lugar. O cérebro continua lendo a imagem como se elas estivessem na posição original, e o resultado é que uma linha reta parece entortar exatamente sobre a área deformada. Quando um trecho da mácula deixa de funcionar, o que aparece é uma falha: um quadrado apagado, escuro ou faltando.

O quadriculado é útil porque transforma essa deformação em algo que dá para ver e comparar: linhas retas, regulares, com um ponto fixo de referência no meio.

O que a tela de Amsler não consegue fazer

Uma revisão sistemática publicada em 2023 na JAMA Ophthalmology reuniu 10 estudos, com 1.890 olhos, que compararam o resultado da tela de Amsler com o exame oftalmológico. Para identificar a forma úmida da DMRI, a tela acertou em 67% dos olhos com a doença quando a comparação era com olhos saudáveis — ou seja, cerca de 1 em cada 3 olhos com a forma úmida não mostrou alteração no teste. Entre pessoas que já tinham a forma seca, a tela detectou 71% dos casos de forma úmida, mas também apontou alteração em cerca de 1 em cada 3 olhos que continuavam com a forma seca. A conclusão dos autores foi que quem tem DMRI deve manter os exames oftalmológicos regulares, qualquer que seja o resultado da tela.

Isso não torna o teste inútil — torna o seu papel mais claro. A tela de Amsler é um aviso entre uma consulta e outra, não uma substituta da consulta: uma folha normal não garante que a mácula está igual, e uma folha alterada não diz o que mudou.

A referência é a sua própria folha

Muita gente que tem DMRI, ou outra alteração antiga da mácula, já vê alguma ondulação na tela desde o primeiro dia. Isso não é motivo de alarme; o que importa é se aquilo muda. Por isso o raciocínio clínico que orienta o uso do teste é este: a tela de Amsler compara você com você mesmo — ela vale pelo que mudou desde a última vez que você olhou, e não por parecer perfeita.

Na prática, ajuda muito criar uma referência:

  • Na primeira vez, com calma, marque a lápis, numa folha para cada olho, qualquer trecho que já pareça ondulado ou falhado, e escreva a data.
  • Use sempre a mesma folha (ou cópias idênticas), na mesma distância, com os mesmos óculos e a mesma luz. Mudar a folha ou a distância muda o tamanho dos quadrados e confunde a comparação.
  • Faça o teste no mesmo horário, para virar hábito — junto com outra tarefa do dia.
  • Leve as folhas marcadas para a consulta. Elas mostram ao médico, de forma concreta, o que você vem observando.
O que você nota na tela O que pode significar O que fazer
Todas as linhas retas, nos dois olhos Nenhuma alteração perceptível no teste Seguir com o teste diário e manter as revisões combinadas
Ondulação antiga, já marcada na sua folha, igual à de antes Alteração conhecida e estável Continuar comparando com a folha de referência
Tudo um pouco borrado por igual, nos dois olhos Pode ser óculos inadequado, luz fraca ou outra causa que não é da mácula Conferir óculos e iluminação; comentar na próxima consulta
Dúvida se algo mudou ou não Pode ser só variação do dia Repetir no dia seguinte, com a mesma folha e as mesmas condições; se persistir, entrar em contato
Linha que ficou ondulada, área borrada ou escura que não existia, ou ondulação que aumentou Pode ser mudança na mácula, como atividade da forma úmida da DMRI Não esperar a revisão: avaliação nos próximos dias — WhatsApp (19) 99193-2057
Mancha central de aparecimento súbito ou perda rápida da visão de um olho Pode ser sangramento ou outra alteração aguda Avaliação no mesmo dia; fora do horário, pronto-socorro oftalmológico

Quem deve fazer o teste

A tela de Amsler é recomendada sobretudo para quem já tem diagnóstico de DMRI, especialmente a forma seca, que pode se transformar na úmida — a diferença entre as duas está explicada em DMRI seca ou úmida. Também costuma ser orientada quando o exame encontra drusas grandes na retina, e para quem já tem a forma avançada em um olho e precisa vigiar o outro. Fora desses casos, quem decide se o teste faz sentido é o oftalmologista, depois de examinar a mácula.

Linhas onduladas também podem aparecer em outras alterações da mácula, como o buraco macular e a membrana epirretiniana. A tela mostra que algo mudou; quem diz o quê é o exame.

O que o exame acrescenta

No Instituto de Olhos Campinas, a consulta com a Dra. Flávia Keiko Ichida examina a mácula com a pupila dilatada, e o OCT e o mapeamento de retina ficam no mesmo endereço. O OCT enxerga, em corte, o que a tela só sugere: se há líquido sob a retina, onde está e se aumentou em relação ao exame anterior. Quando há DMRI ou outra doença da mácula, o acompanhamento segue a linha da retina clínica em Campinas.

A folha presa na porta da geladeira

A folha presa na porta da geladeira funciona quando tem uma referência e um limite claros: a sua primeira marcação a lápis para comparar, e a certeza de que ela avisa, mas não substitui o exame. Se você recebeu a tela e ficou com dúvidas sobre o que já estava lá, o que conta como mudança e de quanto em quanto tempo voltar, leve as suas folhas à consulta com a Dra. Flávia Keiko Ichida — e volte para casa sabendo exatamente o que procurar quando olhar para aquele ponto no meio.

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Perguntas frequentes sobre a tela de Amsler

Posso fazer o teste olhando na tela do celular ou do computador?

Pode servir numa emergência, mas o tamanho do quadriculado muda de um aparelho para outro e de acordo com o zoom, o que atrapalha a comparação entre os dias. Para o hábito diário, uma folha impressa, sempre a mesma e na mesma distância, é mais confiável.

Preciso tirar os óculos para fazer o teste?

Não. O teste deve ser feito com os óculos que você usa para ler. Sem eles, as linhas podem parecer borradas por causa do grau, e não por causa da mácula.

Tenho de fazer todos os dias mesmo?

Sim, para quem recebeu essa orientação. A Academia Americana de Oftalmologia recomenda o teste uma vez por dia, todos os dias, porque a perda de visão na DMRI pode avançar sem que a pessoa perceba no dia a dia. Leva menos de um minuto.

Quem tem catarata pode fazer o teste?

Pode, mas a catarata costuma embaçar a imagem inteira, e não entortar linhas num ponto específico. Se a tela parece toda borrada por igual, a causa pode estar no cristalino; se uma região entorta ou falha, a suspeita recai sobre a mácula.

As linhas tortas sempre significam DMRI?

Não. Além da DMRI, outras alterações da mácula — como buraco macular, membrana sobre a retina e inchaço da mácula por diabetes — também podem entortar as linhas. Por isso uma mudança na tela pede exame, e não um palpite sobre a causa.


Conteúdo revisado pela Dra. Flávia Keiko Ichida, especialista em Oftalmologia — CRM 111925 / RQE 47907.

Referências

  1. American Academy of Ophthalmology. All About the Amsler Grid and Daily Vision Checks for AMD. aao.org (publicado em 19/12/2025)
  2. Bjerager J, Schneider M, Potapenko I, et al. Diagnostic Accuracy of the Amsler Grid Test for Detecting Neovascular Age-Related Macular Degeneration: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Ophthalmology. 2023;141(4):315-323.
  3. American Academy of Ophthalmology. What Are Drusen? aao.org
  4. National Eye Institute. Age-Related Macular Degeneration (AMD). nei.nih.gov
  5. Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) — cbo.com.br

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