Vitaminas para a mácula funcionam? O que o estudo AREDS mostrou

O pote está na mesa da cozinha, ao lado do açucareiro. Foi comprado depois que a mãe recebeu o diagnóstico de degeneração macular — ou depois de um anúncio de “vitamina para os olhos” que prometia proteger a visão. Agora a dúvida corre a família: a mãe deve continuar tomando? E os filhos, que não têm nada, deveriam começar também?

A resposta curta é que essas vitaminas funcionam — para um grupo específico de pessoas, definido por um exame, e não pelo medo da doença.

Vitaminas para a mácula funcionam?

Para quem tem degeneração macular relacionada à idade (DMRI) no estágio intermediário, ou a forma avançada em um dos olhos, sim: a fórmula testada no estudo AREDS, do National Eye Institute, reduziu em cerca de 25% o risco de chegar à forma avançada em cinco anos. Para quem não tem DMRI ou tem só a forma inicial, os estudos não mostraram benefício.

O que os estudos testaram — e por que a dose importa

A mácula recebe luz o tempo todo e trabalha em ritmo intenso, o que a expõe a um desgaste químico constante. A ideia por trás dos estudos foi oferecer, em doses altas, antioxidantes e zinco, que participam da defesa contra esse desgaste. A luteína e a zeaxantina têm um papel a mais: são pigmentos que se concentram na própria mácula e na lente do olho, onde ajudam a absorver a luz de maior energia.

A fórmula usada hoje, chamada AREDS2, combina vitamina C, vitamina E, luteína, zeaxantina, zinco e cobre — este último para evitar a falta de cobre que o zinco em dose alta pode causar. O detalhe que costuma passar despercebido é a dose: segundo o National Eye Institute, um multivitamínico comum não chega perto dela, e nem uma dieta cuidadosa consegue alcançar esses níveis. Isso explica por que “tomar vitaminas” e “tomar a fórmula estudada” não são a mesma coisa — e também por que não se trata de um suplemento inofensivo para usar sem indicação.

O mesmo comprimido, efeitos muito diferentes conforme o estágio

A revisão mais recente da Cochrane sobre o tema, de 2023, reuniu 26 estudos com 11.952 pessoas com DMRI. Quem tomou a fórmula antioxidante teve menos chance de chegar à forma avançada. O que muda tudo é para quem: na DMRI inicial, isso corresponde a cerca de 4 casos a menos de progressão para cada 1.000 pessoas tratadas; na DMRI intermediária, a cerca de 78 casos a menos para cada 1.000.

A diferença não está no comprimido, e sim no risco de quem o toma. Na forma inicial, poucos avançam de qualquer maneira, e sobra pouco para o suplemento evitar. Na intermediária, o risco é alto o suficiente para o efeito aparecer.

E para quem não tem DMRI? Outra revisão da Cochrane, com cinco estudos e 76.756 participantes, não encontrou prevenção: vitamina E e betacaroteno não impediram o aparecimento da doença. O National Eye Institute resume: os suplementos não previnem a DMRI.

Por que a fórmula trocou o betacaroteno pela luteína

A primeira fórmula, do estudo AREDS original, tinha betacaroteno. Durante a pesquisa, estudos sobre câncer mostraram que o betacaroteno aumentava o risco de câncer de pulmão em fumantes, e o estudo seguinte testou a luteína e a zeaxantina no lugar dele. O acompanhamento de dez anos, publicado em 2022 com 3.882 participantes, confirmou a troca: quem recebeu betacaroteno teve quase o dobro de chance de câncer de pulmão (razão de chances 1,82), sem aumento com a luteína — e a luteína se associou a um risco um pouco menor de DMRI avançada do que o betacaroteno.

Na prática, isso significa que fumantes e ex-fumantes não devem usar fórmulas com betacaroteno, e que vale ler o rótulo antes de comprar: nem todo produto vendido como “vitamina para a visão” segue a composição estudada.

O que o seu exame mostra O suplemento faz sentido? O que fazer
Mácula sem DMRI, mesmo com caso na família Não; os estudos não mostraram prevenção Exame periódico, não fumar, alimentação com verduras de folha e peixe
Drusas pequenas, “DMRI inicial” Benefício muito pequeno Acompanhar o estágio nas revisões; decidir com o médico
Drusas grandes ou alteração de pigmento, “DMRI intermediária” Sim, é o grupo que mais se beneficia Discutir a fórmula estudada, a dose e o tempo de uso na consulta
Forma avançada em um olho Sim, para proteger o outro olho Manter o acompanhamento dos dois olhos
Fumante ou ex-fumante Só sem betacaroteno Conferir o rótulo e levar o pote à consulta
Usa anticoagulante ou outros remédios contínuos Depende: a vitamina E pode interagir Levar a lista de remédios ao médico antes de começar
Linhas retas que ficaram tortas ou mancha nova no centro Não é caso de suplemento Avaliação nos próximos dias — WhatsApp (19) 99193-2057

O que o suplemento não faz

Ele não devolve a visão perdida, não trata a forma úmida da DMRI — que tem tratamento próprio, explicado em DMRI seca ou úmida — e não substitui as revisões, porque a distorção que anuncia a forma úmida aparece com ou sem cápsula. Também não serve para a catarata: o mesmo programa de estudos não encontrou efeito sobre o cristalino, como mostra a página catarata pode ser evitada?. E não dispensa o que está ao alcance de todos: parar de fumar, manter atividade física e controlar pressão e colesterol.

Quem define o estágio

O raciocínio clínico que orienta essa indicação é simples de dizer: o suplemento se indica pelo estágio que o exame mostra, não pelo medo da doença nem pela promessa do rótulo. Diagnóstico de DMRI na família é um bom motivo para examinar a mácula — não para começar a tomar algo sem saber se ela tem alguma alteração.

No Instituto de Olhos Campinas, a consulta com a Dra. Flávia Keiko Ichida examina a mácula com a pupila dilatada, e o OCT e o mapeamento de retina ficam no mesmo endereço. São esses exames que mostram se há drusas, de que tamanho, e se há alteração de pigmento — os achados que separam a forma inicial da intermediária. Quando há DMRI, o acompanhamento segue a linha da retina clínica em Campinas.

O pote na mesa da cozinha

O pote na mesa da cozinha pode estar certo para a mãe e desnecessário para os filhos — e só o exame de cada um responde a isso. Se você já toma ou pensa em começar, leve o pote, o último laudo e a lista dos seus remédios à consulta com a Dra. Flávia Keiko Ichida: a pergunta deixa de ser “essas vitaminas funcionam?” e passa a ser a que importa — “funcionam para a minha mácula?”.

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Perguntas frequentes sobre vitaminas para a mácula

Posso tomar a fórmula junto com um multivitamínico?

Sim. Nos estudos AREDS e AREDS2, a maioria dos participantes tomava multivitamínico junto com a fórmula, e o benefício apareceu além dele. O multivitamínico, sozinho, não substitui a fórmula, porque tem doses bem menores.

Comer verduras de folha substitui o suplemento?

Não nas doses estudadas, que são difíceis de alcançar só com comida. Mesmo assim, uma alimentação rica em verduras de folha e peixe é recomendada para todos e, nos estudos, quem comia pouca luteína parecia aproveitar mais o suplemento.

Por quanto tempo é preciso tomar?

Os estudos avaliaram o uso por cerca de cinco anos, e o benefício observado no AREDS se manteve em mais de dez anos de acompanhamento. Na prática, o uso costuma ser prolongado, e a decisão de manter ou parar é revista nas consultas, de acordo com o estágio.

O zinco em dose alta faz mal?

O efeito colateral mais relatado foi desconforto no estômago e no intestino. Por isso o cobre é incluído na fórmula, para evitar a deficiência que o zinco pode causar. No AREDS2, uma dose menor de zinco teve efeito semelhante sobre a mácula.

Ômega 3 ajuda a mácula?

No AREDS2, acrescentar ômega 3 à fórmula não mudou o risco de chegar à DMRI avançada, nem no estudo nem no acompanhamento de dez anos. Peixe na dieta continua sendo recomendado por outros motivos, mas a cápsula de ômega 3 não faz parte da fórmula indicada para a mácula.


Conteúdo revisado pela Dra. Flávia Keiko Ichida, especialista em Oftalmologia — CRM 111925 / RQE 47907.

Referências

  1. National Eye Institute. AREDS/AREDS2 Frequently Asked Questions. nei.nih.gov
  2. Evans JR, Lawrenson JG. Antioxidant vitamin and mineral supplements for slowing the progression of age-related macular degeneration. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2023;9:CD000254.
  3. Evans JR, Lawrenson JG. Antioxidant vitamin and mineral supplements for preventing age-related macular degeneration. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2017;7:CD000253.
  4. Chew EY, Clemons TE, Agrón E, et al. Long-term outcomes of adding lutein/zeaxanthin and ω-3 fatty acids to the AREDS supplements on age-related macular degeneration progression: AREDS2 Report 28. JAMA Ophthalmology. 2022;140(7):692-698.
  5. National Eye Institute. Age-Related Macular Degeneration (AMD). nei.nih.gov
  6. Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) — cbo.com.br

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