Drusas na retina: o que são e quando significam DMRI
O exame era de rotina, e o laudo veio quase todo com a palavra “normal”. Quase: no meio da descrição do fundo de olho aparece “presença de drusas”, sem mais nada ao lado. À noite, a busca pela palavra devolve “degeneração macular” e “perda da visão central”. E a pergunta fica martelando: drusa já é DMRI?
A resposta depende de algo que a palavra sozinha não informa: o tamanho das drusas, quantas são, onde estão e o que existe ao redor delas. Uma drusa pequena e isolada pode ser só um sinal do envelhecimento do olho; drusas maiores, sim, fazem parte da degeneração macular relacionada à idade.
Drusas na retina: o que são?
Drusas são pequenos depósitos amarelados de gordura e proteína que se acumulam embaixo da retina. Aparecem naturalmente com a idade e, segundo a Academia Americana de Oftalmologia, drusas pequenas são comuns depois dos 50 anos em pessoas sem DMRI. Muitas drusas pequenas, ou drusas maiores, costumam ser sinal de degeneração macular. A maioria das pessoas não sente nada: as drusas são descobertas no exame.
Por que as drusas se formam
As células que enxergam, na retina, estão apoiadas sobre uma camada de sustentação que as alimenta e recolhe o que elas descartam todos os dias. Embaixo dessa camada há uma película fina que funciona como um filtro entre a retina e os vasos que a nutrem. Com os anos, parte do material descartado não atravessa esse filtro com a mesma facilidade e vai se acumulando entre as duas camadas. Cada acúmulo é uma drusa.
Enquanto são poucas e pequenas, as drusas quase não mexem no trabalho da retina. Quando crescem, se multiplicam ou se juntam, elas afastam a camada de sustentação dos vasos que a alimentam — e a mácula, o centro da retina responsável pela visão de detalhe, passa a ser nutrida com mais dificuldade. É por isso que o tamanho importa tanto.
O tamanho que muda o risco
Em 2013, um grupo internacional de especialistas em retina propôs, na revista Ophthalmology, uma classificação clínica da DMRI baseada justamente nas drusas encontradas perto do centro da visão (até a distância de dois diâmetros do nervo óptico em torno da fóvea), em pessoas acima de 55 anos:
- drusas pequenas (menores que 63 micrômetros): consideradas alterações normais do envelhecimento, sem aumento relevante do risco;
- drusas médias (de 63 a 125 micrômetros), sem alteração de pigmento: DMRI inicial;
- drusas grandes, ou drusas médias acompanhadas de alteração de pigmento: DMRI intermediária.
O dado que mais chama a atenção está na conclusão do trabalho: o risco de chegar à forma avançada da DMRI em cinco anos varia cerca de 100 vezes entre esses grupos — de 0,5%, nas alterações do envelhecimento normal, a 50%, no grupo intermediário de maior risco. A mesma palavra, “drusas”, pode estar descrevendo os dois extremos dessa faixa.
Drusa é sinônimo de DMRI? O critério que separa
Não. O que transforma a palavra em resposta são três informações que o exame precisa registrar:
- Tamanho — pequenas, médias ou grandes, estimado no fundo de olho e confirmado nos cortes do OCT.
- Companhia — se há alteração do pigmento da retina junto com as drusas, o que pesa mais do que a quantidade.
- Lugar — drusas perto do centro da visão contam para a classificação; drusas espalhadas na periferia da retina têm outro significado.
O raciocínio clínico que orienta essa leitura cabe numa frase: uma drusa não é um diagnóstico; é uma medida — e o laudo só vira resposta quando diz o tamanho, a quantidade e o que está ao redor. Quando o laudo traz só a palavra, a pergunta certa a fazer na consulta é “de que tamanho são, e isso tem nome de estágio?”.
Existe ainda uma confusão de nome. Há drusas que se formam no nervo óptico, e não sob a retina. Elas são feitas de proteína e sais de cálcio, não têm relação com o envelhecimento, podem ser herdadas, costumam aparecer já na infância e, em geral, não afetam a visão central — embora possam, em parte das pessoas, reduzir a visão lateral. São acompanhadas de outro jeito, e nada do que se diz sobre DMRI vale para elas.
| O que o laudo descreve | O que costuma significar | O que fazer |
|---|---|---|
| Drusas pequenas, poucas, sem alteração de pigmento | Alteração comum do envelhecimento | Exame de rotina no intervalo combinado; não precisa de tratamento |
| Drusas médias, sem alteração de pigmento | Corresponde à DMRI inicial | Revisões periódicas e cuidado com os fatores de risco; entender o estágio em DMRI seca ou úmida |
| Drusas grandes, ou médias com alteração de pigmento | Corresponde à DMRI intermediária | Revisões mais próximas, monitoramento em casa e conversa sobre vitaminas para a mácula |
| Só “presença de drusas”, sem tamanho nem estágio | Informação incompleta para decidir | Levar o laudo à consulta e pedir que tamanho e estágio fiquem registrados |
| “Drusas de papila” ou “drusas do nervo óptico” | Outra condição, sem relação com DMRI | Acompanhamento do nervo óptico e da visão lateral, conforme orientação |
| Linhas retas que ficaram onduladas, mancha nova no centro ou piora rápida para ler | Pode ser mudança na mácula | Não esperar a revisão: avaliação nos próximos dias — WhatsApp (19) 99193-2057; perda súbita, no mesmo dia |
Drusas têm tratamento?
Não se trata a drusa em si. A Academia Americana de Oftalmologia é direta: drusas pequenas não precisam de tratamento, e tentar eliminar as drusas não melhora a DMRI. O que muda a conduta é o estágio. Nas drusas do envelhecimento, o cuidado é o exame periódico. Quando as drusas indicam DMRI, entram as medidas próprias de cada estágio — não fumar, controlar pressão e colesterol, revisões no intervalo certo e, na forma intermediária, o suplemento estudado para esse grupo.
Também por isso não faz sentido começar vitaminas, por conta própria, só por ter lido a palavra no laudo: o benefício dos suplementos foi demonstrado para um estágio específico, que só o exame define.
Como as drusas são avaliadas
As drusas aparecem no exame do fundo de olho com a pupila dilatada. No Instituto de Olhos Campinas, a consulta com a Dra. Flávia Keiko Ichida examina a mácula dessa forma, e o mapeamento de retina e o OCT ficam no mesmo endereço. O OCT mostra as drusas em corte, camada por camada, e permite comparar um exame com o seguinte: é essa comparação que diz se elas estão estáveis, crescendo ou se juntando.
Quando as drusas indicam DMRI, o acompanhamento segue a linha da retina clínica em Campinas, e o médico pode orientar o uso da tela de Amsler para vigiar a visão central entre uma consulta e outra.
A palavra sozinha no laudo
“Presença de drusas”, sem mais nada ao lado, é uma frase que pode descrever um olho que está apenas envelhecendo ou uma mácula que pede acompanhamento de perto — e a diferença entre as duas leituras chega a cem vezes no risco. Se o seu laudo trouxe a palavra sozinha, leve-o à consulta com a Dra. Flávia Keiko Ichida e saia de lá com o que faltava escrever: o tamanho das drusas, o estágio que elas indicam e quando vale olhar de novo.
Agendar consulta com a Dra. Flávia Keiko Ichida
Perguntas frequentes sobre drusas
Drusas causam algum sintoma?
Na maioria das pessoas, não. As drusas costumam ser encontradas por acaso, num exame de rotina. Quando há sintoma, como distorção ou mancha na visão central, ele geralmente vem da DMRI em estágio mais avançado, e não das drusas em si.
Dá para remover as drusas com laser ou colírio?
Não existe colírio para drusas, e tentar eliminá-las não melhora a degeneração macular. O cuidado se dirige ao estágio da doença, e não ao depósito: acompanhar, controlar os fatores de risco e agir rápido se a visão central mudar.
O que posso fazer para não piorar?
Os fatores de risco conhecidos para a DMRI são cigarro, obesidade, histórico familiar, pressão alta e colesterol alto. Parar de fumar e cuidar da pressão, do peso e do colesterol são as medidas ao alcance de cada pessoa, junto com as revisões no intervalo combinado.
Quem tem drusas precisa fazer o teste da tela de Amsler?
Nem sempre. O teste costuma ser indicado quando há drusas grandes ou DMRI, para perceber cedo linhas onduladas ou áreas apagadas na visão central. Quem tem só drusas pequenas do envelhecimento geralmente segue apenas com o exame periódico.
Pessoas jovens podem ter drusas?
As drusas ligadas à DMRI são típicas de quem tem mais de 50 anos. Em crianças e adultos jovens, o mais comum são as drusas do nervo óptico, que são outra condição, costumam aparecer nos dois olhos e podem ser hereditárias.
Conteúdo revisado pela Dra. Flávia Keiko Ichida, especialista em Oftalmologia — CRM 111925 / RQE 47907.
Referências
- Ferris FL 3rd, Wilkinson CP, Bird A, et al. Clinical classification of age-related macular degeneration. Ophthalmology. 2013;120(4):844-851.
- American Academy of Ophthalmology. What Are Drusen? aao.org (publicado em 25/06/2026)
- National Eye Institute. Age-Related Macular Degeneration (AMD). nei.nih.gov
- Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) — cbo.com.br
