O que é PRK: como funciona a cirurgia e para quem ela é indicada
Você chegou à consulta decidido a operar a miopia. Fez a topografia, esperou o resultado e ouviu uma frase que não estava no seu roteiro: “no seu caso, o melhor é PRK”. Ninguém falou em complicação, ninguém disse que você não podia operar — e mesmo assim você saiu de lá com a sensação de ter sido reprovado.
PRK (ceratectomia fotorrefrativa) é uma cirurgia a laser que corrige miopia, hipermetropia e astigmatismo remodelando a córnea pela superfície, sem criar o flap do LASIK. A camada mais externa da córnea, o epitélio, é removida; o laser trata o tecido logo abaixo; e o epitélio se refaz sozinho nos dias seguintes.
O que a PRK faz dentro da córnea
A córnea é a lente transparente na frente do olho e faz a maior parte do trabalho de focar a imagem. Quando a curvatura dela não combina com o comprimento do olho, a imagem se forma antes ou depois da retina — é o que produz o grau. Toda cirurgia refrativa a laser resolve isso da mesma forma: mudando essa curvatura em micrômetros. O tecido que precisa ser esculpido fica no estroma, a camada espessa do meio da córnea — e para chegar até ele é preciso atravessar o epitélio, a película de células que reveste a superfície.
O LASIK cria uma lamela — uma tampa fina de tecido, levantada, tratada por baixo e recolocada. A PRK não abre tampa nenhuma: o epitélio é retirado com escova, solução alcoólica ou o próprio laser, o excimer trata a superfície exposta do estroma e o epitélio se regenera por conta própria. No fim da cirurgia, uma lente de contato terapêutica é colocada sobre o olho — não para corrigir grau, mas como curativo enquanto as células voltam a cobrir a área tratada.
O laser é o mesmo nas duas técnicas. A programação é a mesma. O que muda é o caminho até o tecido que precisa ser tratado.
Por que a ausência do flap é a característica central da PRK
A lamela do LASIK consome espessura: costuma ter entre 100 e 120 micrômetros e, depois de recolocada, não volta a contribuir com a resistência estrutural da córnea da mesma forma. O que sustenta a córnea a longo prazo é o estroma que sobra embaixo — o leito estromal residual. Por isso existe um número que o cirurgião calcula antes de qualquer decisão. A Academia Americana de Oftalmologia (Refractive Surgery Preferred Practice Pattern, 2022, atualizado em 2024) recomenda deixar no mínimo 250 micrômetros de leito estromal residual no LASIK, ressalvando que nenhum valor garante em absoluto a ausência de ectasia — o afinamento e o encurvamento progressivo da córnea depois da cirurgia. O mesmo documento aponta topografia alterada e percentual de tecido modificado igual ou superior a 40% como fatores associados a maior risco.
A conta fica direta. Numa córnea de espessura média com grau baixo, sobra folga confortável. Numa córnea mais fina, ou num grau mais alto, os 100 a 120 micrômetros gastos com a lamela podem ser exatamente o que falta para a margem de segurança. A PRK não gasta essa espessura — e continua sendo a técnica indicada quando o LASIK não seria prudente:
- Córneas mais finas ou com pouca folga entre a espessura total e o grau a corrigir.
- Topografia limítrofe — mapas que não fecham diagnóstico de ceratocone, mas também não são inteiramente normais.
- Risco de trauma no olho: quem pratica luta, artes marciais ou trabalha com risco de impacto. Sem lamela, não existe a possibilidade de deslocamento dela anos depois.
- Olho seco prévio relevante, já que o corte da lamela secciona nervos corneanos que participam do reflexo de produção de lágrima — um tema que tem nuances próprias na avaliação pré-operatória.
Nada disso é decidido no olho clínico: sai da paquimetria e da topografia de córnea, que medem espessura e mapeiam curvatura ponto a ponto. São os mesmos exames que definem até quantos graus é possível corrigir com segurança e que compõem a avaliação de quem é candidato à cirurgia refrativa.
Como é o dia da cirurgia
A PRK é ambulatorial, com anestesia em colírio, e leva poucos minutos por olho — a maior parte do tempo na sala é de preparo, não de laser. Você fica deitado, com um afastador mantendo a pálpebra aberta, olhando para uma luz de fixação. O epitélio é removido da área central, o excimer entra em ação por alguns segundos com um som de estalos, a lente terapêutica é posicionada e o olho é liberado. Não há corte com bisturi nem pontos, e você volta para casa no mesmo dia — sem dirigir.
A ordem das sensações costuma surpreender: durante o procedimento praticamente não se sente dor, porque a córnea está anestesiada. O desconforto aparece horas depois, quando o colírio perde efeito e a superfície tratada fica exposta.
Os primeiros dias: o que o seu epitélio está fazendo
Essa é a parte que diferencia a PRK — e a que merece expectativa correta, não otimismo genérico. As células epiteliais migram das bordas para o centro, fechando a área descoberta. Segundo a Academia Americana de Oftalmologia, recompor um epitélio íntegro leva cerca de uma semana, e a melhor acuidade corrigida pode levar algumas semanas a mais para se estabelecer. Enquanto essa superfície não fica lisa, a visão oscila — e oscilar, aqui, é o esperado, não sinal de que algo deu errado.
| Período | O que está acontecendo na córnea | O que fazer |
|---|---|---|
| Primeiras 24–72 horas | Superfície ainda descoberta; nervos corneanos expostos | Fase de maior desconforto. Usar os colírios nos horários prescritos, ambiente com pouca luz, evitar esforço visual |
| 3 a 7 dias | Epitélio fechando de fora para dentro | Retorno para avaliar o fechamento; a lente terapêutica sai quando o médico julgar adequado — nunca por conta própria |
| 1 a 4 semanas | Epitélio já íntegro, mas ainda se regularizando | Visão funcional e em melhora, com flutuações no dia. Retomar atividades conforme liberação individual |
| 1 a 6 meses | Remodelamento e estabilização do grau | Manter acompanhamento e proteção solar; a estabilidade é avaliada nos retornos, não pela sua percepção |
O desconforto dos primeiros dias é real e é tratado com colírios e medicação prescrita — assunto detalhado no texto sobre dor na cirurgia refrativa, e o retorno às atividades, no texto sobre recuperação da cirurgia refrativa.
Quando o desconforto deixa de ser esperado
Procure avaliação imediatamente se, depois do terceiro ou quarto dia, a dor aumentar em vez de diminuir; se aparecer secreção amarelada; se o olho ficar intensamente vermelho; ou se houver queda súbita de visão. Esses sinais não fazem parte da recuperação normal e precisam ser vistos no mesmo dia. Pacientes do Instituto de Olhos Campinas podem acionar a clínica pelo WhatsApp (19) 99193-2057; fora do horário de atendimento, o caminho é o pronto-socorro oftalmológico. Esperar até o retorno já marcado não é opção.
PRK e LASIK chegam ao mesmo lugar por caminhos diferentes
Aqui está o dado que costuma reorganizar a conversa. Uma metanálise em rede publicada no American Journal of Ophthalmology (2017), reunindo 48 ensaios clínicos randomizados sobre as principais técnicas de cirurgia refrativa a laser, não encontrou diferença estatisticamente significativa de acuidade visual entre nenhum par de técnicas — nem de aberrações de alta ordem, nem de sensibilidade ao contraste. No ranqueamento de qualidade visual do estudo, as técnicas de superfície, incluindo a PRK, ficaram entre as mais bem posicionadas.
O que muda de forma consistente é a velocidade da recuperação inicial, não o destino: quem faz LASIK enxerga bem em um ou dois dias, quem faz PRK leva semanas para chegar ao mesmo patamar. É uma diferença que pesa muito na agenda de quem opera e quase nada no resultado de um ano depois. Os critérios de escolha lado a lado estão na comparação entre LASIK e PRK.
O que a PRK corrige — e o que ela não resolve
A PRK trata miopia, hipermetropia e astigmatismo dentro de faixas definidas por espessura de córnea e grau. O que ela não faz é interromper o processo que produziu o grau — por isso a estabilidade prévia é um dos critérios confirmados antes de operar, na mesma lógica do texto sobre se a miopia tem cura. E não resolve a vista cansada: depois dos 40 anos, a perda de foco para perto segue seu próprio curso.
Por que a técnica não se escolhe no balcão
Há um padrão que a Dra. Flávia Keiko Ichida encontra com frequência no consultório: o paciente chega com a técnica já escolhida — quase sempre a que ouviu de um amigo — esperando que o exame apenas confirme a decisão. O critério dela é o inverso: a cirurgia que representa risco para aquele olho específico não é indicada, mesmo que o paciente queira, e a que a córnea comporta é oferecida com o motivo explicado, não como consolo. É a mesma linha que orienta o pedido de exames na clínica — paquimetria e topografia são solicitadas porque mudam a conduta, não para engrossar protocolo. Quando o mapa aponta PRK, o que importa não é qual técnica tem o nome mais moderno: é qual delas seu olho suporta com margem de segurança pelas próximas décadas.
Perguntas frequentes sobre a PRK
Posso operar os dois olhos no mesmo dia?
É possível, mas a decisão é individual. Como a recuperação visual da PRK é mais lenta, operar um olho de cada vez preserva funcionalidade nos primeiros dias — o que pesa para quem não pode se afastar do trabalho.
Preciso parar de usar lente de contato antes dos exames?
Sim. A lente altera temporariamente a curvatura da córnea, e um mapa feito sob esse efeito não representa o olho real. O tempo de suspensão varia conforme o tipo de lente — alguns dias para gelatinosas, períodos mais longos para rígidas. Confirme o prazo com a clínica ao agendar.
A PRK deixa cicatriz na córnea?
O termo técnico é haze: uma opacidade discreta que pode surgir na cicatrização, mais associada a graus altos. Costuma ser leve e transitória, e existem medidas usadas durante e após a cirurgia para reduzir esse risco. Proteção solar rigorosa nos primeiros meses faz parte da prevenção.
Se sobrar grau, a PRK pode ser repetida?
Um retoque pode ser considerado quando o grau residual é significativo e o quadro está estável — em geral não antes de alguns meses de acompanhamento. A possibilidade depende da espessura que restou, o que reforça por que essa reserva é calculada já na primeira cirurgia.
Existe idade mínima para fazer PRK?
Sim, mas o critério real não é a idade em si, e sim a estabilidade do grau — assunto tratado no texto sobre idade mínima para cirurgia refrativa.
O convênio cobre PRK?
A cobertura segue regras da ANS, com faixas de grau definidas em norma, e não vale automaticamente para todo paciente. As condições estão no texto sobre cobertura de convênio na cirurgia refrativa.
Quanto tempo depois da PRK dá para voltar a dirigir?
Depende do fechamento do epitélio e da acuidade atingida, avaliados nos retornos. Como a visão flutua nas primeiras semanas, a liberação — sobretudo para dirigir à noite — é individual e dada em consulta, nunca por prazo fixo.
Onde avaliar se a PRK é a técnica certa para o seu olho
Se você saiu da consulta com a sensação de ter sido reprovado, vale inverter a leitura: a indicação de PRK não é o que sobrou para o seu olho — é o que a sua córnea, medida micrômetro a micrômetro, comporta com segurança. Essa resposta não está em vídeo nem na experiência do amigo que operou: está na sua topografia e na sua paquimetria.
No Instituto de Olhos Campinas, a Dra. Flávia Keiko Ichida faz a avaliação pré-operatória completa e explica qual técnica o seu caso comporta e por quê. Conheça a cirurgia refrativa em Campinas e agende sua avaliação.
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Conteúdo revisado pela Dra. Flávia Keiko Ichida, especialista em Oftalmologia — CRM 111925 / RQE 47907.
Referências
- American Academy of Ophthalmology. Refractive Surgery Preferred Practice Pattern (2022, atualizado em 2024).
- American Academy of Ophthalmology. What Is Photorefractive Keratectomy (PRK)?
- American Academy of Ophthalmology — EyeNet Magazine. PRK: Feeling Better and Healing Faster.
- Wen D, McAlinden C, Flitcroft I, et al. Postoperative Efficacy, Predictability, Safety, and Visual Quality of Laser Corneal Refractive Surgery: A Network Meta-analysis. Am J Ophthalmol. 2017;178:65-78.
- Cochrane Database of Systematic Reviews. LASIK versus photorefractive keratectomy (PRK) for myopia.
