Olho lacrimejando: por que acontece e o que o sintoma revela sobre o seu olho
O olho que não para de lacrimar parece o oposto de um problema de ressecamento. Por isso, quando o oftalmologista examina um paciente com lacrimejamento constante e diz “o seu olho está seco”, a reação mais comum é de incredulidade. Como um olho que lacrima o tempo todo pode estar seco?
Essa é provavelmente a coisa mais contraintuitiva sobre lacrimejamento — e entendê-la muda completamente como o sintoma é tratado.
O sistema lacrimal: dois mecanismos, um mesmo sintoma
O olho produz dois tipos de lágrima com funções distintas. A lágrima basal é produzida continuamente pelas glândulas lacrimais e pela conjuntiva, e forma a película que cobre e protege a superfície do olho. A lágrima reflexa é produzida em resposta a estímulos — irritação, vento, fumaça, emoção — e seu volume é muito maior.
O lacrimejamento excessivo — chamado clinicamente de epífora — pode vir de dois lugares completamente diferentes:
- Produção excessiva: o olho está produzindo mais lágrima do que o sistema de drenagem consegue escoar — geralmente em resposta a alguma irritação da superfície ocular.
- Drenagem insuficiente: a produção de lágrima é normal, mas o canal que deveria escoá-la (ducto nasolacrimal) está parcial ou totalmente obstruído.
O tratamento correto depende de qual dos dois está causando o problema. Tratar obstrução com colírio anti-inflamatório, ou tratar olho seco com desobstrução do canal, não resolve — e frequentemente piora.
Olho seco que parece úmido: o paradoxo mais comum
Quando a película lacrimal é instável — seja por pouca produção de componente aquoso, seja por evaporação excessiva — a superfície do olho fica mal protegida e envia um sinal de irritação ao sistema nervoso. A resposta é uma descarga de lágrima reflexa: muito volume, mas de composição diferente da lágrima basal que o olho precisava.
O resultado é um olho que lacrima, mas que ainda está com a superfície mal lubrificada. O paciente nota que os olhos ficam molhados o tempo todo — mas também sente ardência, sensação de areia e piora com uso de telas. Esses sintomas coexistindo são um sinal clínico característico do olho seco.
Tratar esse paciente com colírio vasoconstricto ou anti-alérgico não resolve. O que resolve é tratar a causa do ressecamento — com lágrima artificial adequada, plugues lacrimais quando indicados, e manejo da blefarite quando presente.
Obstrução do ducto nasolacrimal
O ducto nasolacrimal é o canal que drena a lágrima do canto interno do olho para dentro do nariz — daí o nariz escorrer quando choramos. Quando esse canal está parcialmente bloqueado, a lágrima que não consegue escoar transborda pela margem palpebral.
Os sinais que diferenciam a obstrução lacrimal do olho seco: o lacrimejamento costuma ser mais em um olho do que no outro, tende a piorar em ambientes frios e ventosos (quando a evaporação é maior e a drenagem já comprometida não dá conta), e frequentemente vem acompanhado de secreção nos cantos dos olhos pela manhã — resultado da estase lacrimal.
Em adultos, a obstrução pode ser parcial (estenose) ou total, e costuma ser adquirida — por infecção, inflamação crônica, trauma ou envelhecimento dos tecidos do canal. O diagnóstico é feito com um teste simples de permeabilidade do canal na própria consulta.
Em bebês: o ducto que ainda não abriu
Em recém-nascidos, o lacrimejamento persistente em um olho — com ou sem secreção — costuma indicar que o ducto nasolacrimal não completou sua abertura ao nascimento. É uma condição muito comum: estima-se que ocorra em 5 a 10% dos bebês. Na maioria, o ducto abre espontaneamente até os 12 meses de vida, especialmente com massagem na região do saco lacrimal. Quando não abre, uma sondagem simples resolve o problema de forma definitiva.
Outras causas frequentes de lacrimejamento
Conjuntivite
A inflamação da conjuntiva — viral, bacteriana ou alérgica — irrita a superfície do olho e dispara a produção reflexa de lágrima. Na conjuntivite, o lacrimejamento costuma vir acompanhado de olho vermelho, sensação de areia e, dependendo do tipo, secreção ou coceira intensa. O tratamento é diferente para cada tipo — o que torna o diagnóstico pelo exame, e não pela autoadministração de colírio, importante.
Blefarite
A inflamação crônica das margens das pálpebras — onde ficam as glândulas que produzem a camada oleosa da lágrima — compromete a estabilidade da película lacrimal e causa lacrimejamento intermitente, especialmente pela manhã. Os pacientes costumam notar crosta nas pálpebras ao acordar e olhos lacrimejantes no início do dia que melhoram com o tempo.
Corpo estranho
Um grão de poeira, cílio ou fragmento minúsculo na superfície do olho desencadeia lacrimejamento reflexo intenso — o mecanismo de defesa mais eficiente que o olho tem. Se o corpo estranho não sair com o lacrimejamento espontâneo, não tente retirá-lo com o dedo. Avaliação oftalmológica com lâmpada de fenda identifica e remove com segurança.
Alterações das pálpebras
Quando a margem palpebral está voltada para fora (ectrópio) ou para dentro (entrópio), o ponto lacrimal — a abertura por onde a lágrima entra no canal de drenagem — perde o contato correto com o filme lacrimal. O resultado é lacrimejamento que escorre pela bochecha, sem que o olho esteja produzindo mais lágrima do que o normal. São condições mais comuns em idosos e têm solução cirúrgica quando necessário.
Alergia ocular
A exposição a alérgenos — pólen, pelos de animais, ácaros, cosméticos — inflama a conjuntiva e provoca lacrimejamento, coceira e vermelhidão. O padrão sazonal ou associado a exposição específica ajuda no diagnóstico. O tratamento inclui antihistamínico tópico e, quando possível, remoção do alérgeno.
Quando o lacrimejamento merece avaliação
Lacrimejamento que passa com a remoção de um irritante pontual (vento, fumaça, poeira) é resposta normal. O que justifica consulta oftalmológica:
- Lacrimejamento persistente por mais de duas semanas sem causa óbvia
- Lacrimejamento em apenas um olho
- Inchaço ou dor no canto interno do olho, próximo ao nariz
- Secreção amarelada ou esverdeada junto com o lacrimejamento
- Lacrimejamento acompanhado de visão embaçada ou sensibilidade à luz
- Olho sempre vermelho junto com o lacrimejamento
- Em bebês: olho lacrimejante desde os primeiros dias de vida, especialmente com secreção
O exame oftalmológico diferencia produção excessiva de drenagem insuficiente, identifica a causa e define o tratamento certo. A maioria dos casos tem solução — o que varia é o caminho para chegar lá.
Perguntas frequentes sobre lacrimejamento ocular
Olho seco pode causar lacrimejamento?
Sim — e é uma das causas mais subdiagnosticadas. Quando a película lacrimal é instável, o olho produz lágrima reflexa em excesso para compensar. O resultado é lacrimejamento abundante que coexiste com ardência, sensação de areia e piora com telas. Tratar o ressecamento resolve o lacrimejamento.
Bebê com olho lacrimejando: precisa ir ao médico?
Se o lacrimejamento for persistente desde as primeiras semanas de vida, sim. O mais provável é obstrução do ducto nasolacrimal — comum, mas que merece acompanhamento para decidir entre massagem, observação ou sondagem. Quando vem com muita secreção e olho vermelho, avaliação mais rápida é indicada.
Lacrimejamento piora no vento e no frio: por quê?
O vento e o frio aceleram a evaporação da película lacrimal e estimulam terminações nervosas da superfície ocular, disparando produção reflexa de lágrima. Quem tem olho seco ou canal lacrimal parcialmente obstruído sente esse efeito de forma mais intensa.
É normal lacrimar muito ao ler ou usar telas?
Não é normal no sentido de ser esperado sem causa — pode indicar olho seco relacionado à redução do piscar durante leitura ou uso de telas, blefarite, ou problema refrativo não corrigido. Vale investigar se o sintoma é frequente.
Colírio para lacrimejamento: qual usar?
Depende da causa. Lágrima artificial para olho seco, antihistamínico tópico para alergia, antibiótico apenas se houver infecção bacteriana confirmada. Usar colírio vasoconstricto (“que tira o vermelho”) de forma crônica não trata o lacrimejamento e pode piorar o ressecamento. O exame define qual colírio faz sentido para cada caso.
Agende sua avaliação no Instituto de Olhos Campinas
Se o olho lacrima com frequência, mas o motivo nunca ficou claro — nem sempre é alergia, nem sempre é o vento, e às vezes é exatamente o oposto do que parece. A consulta existe para separar o que é resposta normal do que é sinal de que o olho precisa de ajuda.
A Dra. Flávia Keiko Ichida atende no Instituto de Olhos Campinas, no Cambuí, de segunda a sexta, das 7h45 às 18h.
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Conteúdo revisado pela Dra. Flávia Keiko Ichida, especialista em Oftalmologia — CRM 111925 / RQE 47907.
Referências
- American Academy of Ophthalmology. Epiphora (Excessive Tearing). Disponível em: aao.org
- National Eye Institute (NEI). Dry Eye. Disponível em: nei.nih.gov
- Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO). Diretrizes em Oftalmologia: Superfície Ocular. São Paulo, 2020.
- Pavlidis M, et al. Clinical investigation of the lacrimal drainage system. Graefe’s Archive for Clinical and Experimental Ophthalmology, 2006.
- Bron AJ, et al. TFOS DEWS II pathophysiology report. The Ocular Surface, 2017.
