Lente multifocal para catarata: para quem ela realmente vale a pena

Quase todo paciente que descobre que vai operar a catarata chega à consulta com a mesma frase pronta: “Doutora, eu queria uma lente que me livrasse do óculos de vez.” O desejo é legítimo — e, para muita gente, alcançável. Mas a pergunta que realmente decide o resultado não é “eu quero parar de usar óculos?”. É outra: “o meu olho e o meu jeito de viver combinam com essa lente?” Porque a lente multifocal, quando cai no paciente certo, é libertadora. No paciente errado, vira uma fonte de incômodo que poderia ter sido evitada.

Este texto não vai repetir a diferença técnica entre a lente monofocal e a multifocal — isso está explicado em detalhe em outra página. Aqui o foco é o que quase nenhum material aborda com honestidade: para quem a multifocal vale a pena, para quem não vale, e como se descobre de que lado você está antes de operar.

O que a lente multifocal se propõe a resolver

A catarata deixa o cristalino opaco, e a cirurgia troca esse cristalino por uma lente artificial. Uma lente monofocal entrega um único ponto de foco nítido — normalmente para longe — e o paciente segue usando óculos para perto. A multifocal foi projetada para distribuir a luz que entra no olho em mais de um ponto de foco ao mesmo tempo, permitindo enxergar de longe, de perto e, nas versões trifocais, também na distância intermediária, sem depender tanto dos óculos.

Esse é o mecanismo que explica tanto a vantagem quanto o preço a pagar. Quando a luz é dividida em vários focos, o cérebro passa a receber, ao mesmo tempo, uma imagem nítida e imagens desfocadas concorrentes — e aprende a selecionar a que interessa em cada distância. É por isso que a multifocal exige adaptação, e é o mesmo mecanismo que gera os halos ao redor de luzes no escuro. Entender isso já ajuda a decidir: a multifocal não é “melhor” que a monofocal em tudo. Ela troca um pouco de qualidade de contraste por independência dos óculos.

O que os números realmente mostram

A promessa de largar os óculos não é marketing — mas também não é garantia. Em um ensaio clínico publicado na revista Ophthalmology, comparando os dois tipos de lente após a cirurgia de catarata, 73,3% dos pacientes com lente multifocal relataram independência dos óculos, contra 25,3% no grupo com lente monofocal. É uma diferença expressiva a favor da multifocal para quem tem esse objetivo. Mas repare no outro lado do mesmo número: mesmo com a multifocal, cerca de um em cada quatro pacientes ainda usava óculos para alguma tarefa. Ou seja, a lente aumenta muito a chance de liberdade — não a transforma em certeza absoluta. Um bom candidato entra na cirurgia entendendo isso.

Para quem a lente multifocal costuma valer a pena

O perfil que mais se beneficia não é definido pela idade nem pela renda — é definido pela combinação entre a saúde do olho e o estilo de vida. Costuma ser um bom candidato quem:

  • tem o olho “limpo” de outras doenças — sem alterações importantes de retina, sem glaucoma avançado, sem olho seco severo;
  • divide o dia entre várias distâncias — usa o computador, lê, dirige, cozinha — e se incomoda com a ideia de trocar de óculos o tempo todo;
  • tem uma expectativa realista: quer reduzir bastante a dependência dos óculos, não exige perfeição absoluta em toda situação;
  • não passa a maior parte do trabalho dirigindo à noite ou em atividades que exijam contraste máximo no escuro.

Para esse paciente, a multifocal costuma entregar exatamente o que ele procurava: acordar, enxergar o relógio, ler o celular, trabalhar e sair sem procurar os óculos.

Para quem ela pode não ser a melhor escolha

Aqui está a parte que raramente aparece nos materiais, e que é justamente o que protege o paciente de uma frustração. A multifocal tende a não compensar quando:

  • o olho tem outra condição que já reduz a qualidade da imagem — nesse caso, dividir a luz em vários focos piora um problema que já existe;
  • a pessoa dirige muito à noite, especialmente por profissão — os halos e brilhos ao redor de faróis e postes incomodam mais esse perfil;
  • a atividade principal exige contraste e nitidez máximos numa única distância (algumas profissões visuais muito específicas);
  • a expectativa é de perfeição — o paciente que não tolera nenhum halo, nenhuma fase de adaptação, tende a ficar mais satisfeito com uma monofocal bem planejada.

Reconhecer isso não é “vender menos”. É o contrário: é o que faz o resultado ser bom. Uma lente premium implantada no olho errado não vira um olho premium.

O astigmatismo muda a conversa

Um detalhe decide muitos casos: o astigmatismo. Se o paciente tem astigmatismo relevante e ele não for corrigido, a multifocal não entrega o resultado esperado — a imagem já sai distorcida, e a divisão de foco piora a percepção. A boa notícia é que existe solução: versões da lente que também corrigem o astigmatismo. Vale entender como funciona a correção do astigmatismo com a lente tórica antes de descartar a multifocal por causa disso.

As perguntas que definem a indicação

Na prática, a escolha da lente não sai de uma tabela — sai de uma conversa. Antes de indicar qualquer lente multifocal, a Dra. Flávia Keiko Ichida faz um conjunto de perguntas que revelam se o perfil combina com a lente: você trabalha com o quê e em que ambiente? Dirige com que frequência, e à noite? Quanto tempo passa lendo ou diante de telas? Para o que usa óculos hoje — longe, perto ou os dois? Se pudesse escolher, preferiria não usar óculos para longe ou para perto? Tem astigmatismo que incomoda? Tem alguma outra condição ocular, como glaucoma, alteração de retina ou olho seco?

Nenhuma dessas perguntas é sobre a lente. Todas são sobre o paciente. É por isso que a mesma catarata, em dois pacientes diferentes, pode levar a duas indicações de lente diferentes — e ambas estarem certas. Esse é o coração do processo de decidir qual lente escolher: a melhor lente é a que combina com a sua vida, não a mais cara do catálogo.

A adaptação faz parte — e é temporária

Vale ajustar a expectativa sobre o pós-operatório. Com a multifocal, é comum que nos primeiros dias e semanas o cérebro ainda esteja “aprendendo” a alternar entre os focos, e que halos noturnos sejam mais evidentes nesse período. Para a maioria dos pacientes, isso diminui de forma significativa ao longo das primeiras semanas a poucos meses. Saber disso de antemão muda a experiência: o paciente que espera a fase de adaptação a atravessa com tranquilidade; o que não foi avisado, se assusta. Por isso a decisão da lente pertence à consulta que antecede a cirurgia — e não ao momento em que você já está deitado na sala. Você pode ver como é feita a cirurgia de catarata para entender onde essa escolha entra no processo.

Onde essa decisão é feita, em Campinas

A definição da lente ideal exige exames do olho e uma avaliação individual — não existe resposta pelo telefone nem pela internet. No Instituto de Olhos Campinas, no Cambuí, essa avaliação faz parte da consulta que antecede a cirurgia de catarata em Campinas, com a estrutura de exames necessária para medir o olho com precisão e definir, com base no seu caso, se a multifocal é a escolha certa para você. Pacientes de Campinas e de cidades próximas, como Valinhos, Vinhedo e Paulínia, fazem essa avaliação antes de decidir.

Perguntas frequentes

Toda catarata pode receber lente multifocal?
Não. A multifocal exige um olho sem outras condições que degradem a qualidade da imagem, como alterações importantes de retina, glaucoma avançado ou olho seco severo. A avaliação individual define quem é candidato.

Lente multifocal dá halos à noite?
Pode dar. A divisão da luz em vários focos tende a gerar halos e brilhos ao redor de luzes no escuro, mais perceptíveis nos primeiros meses. Para a maioria, isso reduz com a adaptação — mas quem dirige muito à noite deve levar esse ponto em conta na decisão.

Quem tem astigmatismo pode usar lente multifocal?
Sim, desde que o astigmatismo seja corrigido, geralmente com uma versão tórica da lente. Astigmatismo não tratado compromete o resultado.

O convênio cobre a lente multifocal?
Os convênios costumam cobrir a cirurgia e a lente monofocal. A multifocal em geral é um complemento particular. O que se aplica ao seu caso deve ser confirmado na avaliação.

Quanto tempo leva para se acostumar?
A maioria se adapta ao longo das primeiras semanas a alguns meses, conforme o cérebro aprende a selecionar o foco certo para cada distância.

Se eu não me adaptar, dá para trocar a lente?
A troca é possível, mas é um segundo procedimento e nem sempre simples. É justamente por isso que a escolha certa, antes da cirurgia, importa tanto.

Agende sua avaliação para descobrir qual lente combina com você

Você não precisa chegar à consulta com a lente já decidida. Precisa chegar com as suas perguntas — sobre como dirige, como trabalha, como lê — e deixar que o exame e a conversa mostrem se a multifocal é a lente que vai te dar a liberdade que você procura, ou se outro caminho protege melhor o seu caso. Essa é uma decisão para o resto da vida, e ela merece ser tomada com base no seu olho, não numa frase pronta.

Agende sua consulta com a Dra. Flávia Keiko Ichida no Instituto de Olhos Campinas.


Conteúdo revisado pela Dra. Flávia Keiko Ichida, especialista em Oftalmologia — CRM 111925 / RQE 47907.

Referências

  1. Javitt J, Steinert R, et al. Visual Outcomes After Cataract Surgery: Multifocal Versus Monofocal Intraocular Lenses. Ophthalmology.
  2. American Academy of Ophthalmology (AAO). Premium IOLs: Multifocal and Accommodative Lenses.
  3. Sociedade Brasileira de Catarata e Cirurgia Refrativa (BRASCRS). Lentes intraoculares premium.
  4. Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO). Cirurgia de catarata e correção da presbiopia.

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