Lente para astigmatismo na cirurgia de catarata: quando ela é necessária

É comum o paciente sair da consulta de pré-operatório com uma informação nova, que não esperava: “você também tem astigmatismo.” A reação mais comum é achar que isso é só um detalhe a mais no laudo — um número que vai para a receita, sem grande peso na decisão da cirurgia. Só que, na cirurgia de catarata, o astigmatismo muda o cardápio de lentes disponíveis. Ignorar esse detalhe é uma das causas mais comuns de o paciente operar a catarata e continuar precisando de óculos para longe, mesmo com uma lente boa.

Este texto não repete o funcionamento da lente tórica — isso está explicado em detalhe na página sobre a lente tórica. Aqui o foco é outro: quando o astigmatismo realmente exige uma lente específica, e o que muda quando, além do astigmatismo, você também tem presbiopia e quer resolver as duas coisas na mesma cirurgia.

Por que o astigmatismo entra na conta da lente

A córnea saudável tem uma curvatura regular, como uma bola. No olho com astigmatismo, essa curvatura é mais irregular, como uma bola de rugby — mais curva em um eixo do que no outro. Isso faz a luz focar em mais de um ponto dentro do olho, em vez de um só, gerando uma imagem borrada tanto de longe quanto de perto. Uma lente intraocular comum, esférica, corrige a catarata, mas não corrige essa irregularidade de curvatura — o paciente sai da cirurgia sem catarata, mas ainda com a imagem distorcida pelo astigmatismo não tratado.

É por isso que, quando o astigmatismo é relevante, entra em cena uma lente com uma correção adicional embutida — capaz de compensar essa curvatura irregular da córnea, e não apenas substituir o cristalino opaco.

Quando o astigmatismo é “relevante” o suficiente para pedir essa lente

Nem todo grau de astigmatismo muda a decisão. Estudos com pacientes candidatos à cirurgia de catarata mostram que entre 35% e 41% deles têm astigmatismo corneano igual ou maior que 0,75 grau — uma faixa que já costuma justificar uma lente com correção específica, dependendo do restante do exame. Abaixo disso, o impacto na qualidade da visão costuma ser pequeno, e a decisão passa a depender mais do conjunto do olho do que do astigmatismo isoladamente.

É a topografia de córnea, feita na avaliação pré-operatória, que mede esse grau com precisão e mostra se ele está dentro da faixa que pede correção. Não é uma estimativa a olho nem um valor “padrão” — é medido caso a caso.

Quando entra também a presbiopia

Aqui está o cenário que gera mais dúvida na prática: o paciente tem astigmatismo relevante e, ao mesmo tempo, gostaria de reduzir a dependência dos óculos para perto — a presbiopia que já estava presente antes mesmo da catarata aparecer. Corrigir só o astigmatismo resolve a nitidez longe/perto na mesma distância, mas não devolve a capacidade de focar em várias distâncias sem óculos. Para isso, existe uma categoria de lente que reúne as duas correções — a base multifocal, que distribui o foco em mais de um ponto, combinada com o ajuste específico para a curvatura irregular da córnea.

Essa combinação não é automática para todo paciente com astigmatismo. Ela depende da mesma avaliação que define qualquer indicação de lente multifocal — porque somar duas correções também soma as exigências sobre a saúde do olho. Um olho com astigmatismo alto mas com alguma outra alteração pode ser melhor candidato a corrigir só o astigmatismo, deixando a independência dos óculos para perto de lado.

O critério que a Dra. Flávia usa nesse caso específico

Diante de um astigmatismo relevante, a primeira pergunta não é “quanto o paciente quer gastar” — é se a córnea tem uma curvatura estável e regular o suficiente para prever com segurança o resultado da correção. Astigmatismos irregulares, por exemplo ligados a alterações de córnea como o ceratocone, mudam completamente essa análise e podem contraindicar a correção tórica planejada como para um astigmatismo regular. Esse é um dos motivos pelos quais a lente para astigmatismo nunca é decidida só pelo grau que aparece no exame — ela é decidida dentro do processo completo de escolha de lente, que leva em conta o restante da saúde do olho e a rotina do paciente.

O que acontece se o astigmatismo não for corrigido

Um erro comum é achar que “dá para resolver depois, com óculos”. E de fato dá — mas isso significa abrir mão, de saída, de um dos objetivos mais comuns de quem opera a catarata hoje: reduzir a dependência dos óculos. Se o astigmatismo relevante não for corrigido durante a cirurgia, o paciente segue precisando de óculos para enxergar bem de longe, independentemente do tipo de lente escolhida para a catarata em si. Corrigir depois, com um procedimento adicional sobre o olho já operado, costuma ser mais complexo do que corrigir no mesmo tempo cirúrgico.

Perguntas frequentes

Todo astigmatismo precisa de lente especial na catarata?
Não. Astigmatismos muito baixos podem não exigir correção específica na lente. A decisão depende do grau medido na topografia de córnea feita antes da cirurgia.

Dá para corrigir astigmatismo e presbiopia na mesma cirurgia?
Sim, existem lentes que combinam as duas correções. A indicação depende da avaliação individual do olho e do estilo de vida do paciente.

O convênio cobre lente para astigmatismo?
A cobertura varia. O que se aplica ao seu convênio deve ser confirmado na consulta, com base no seu grau de astigmatismo e no plano contratado.

Se eu não corrigir o astigmatismo agora, dá para corrigir depois?
É possível em alguns casos, mas geralmente exige um procedimento adicional. Corrigir durante a cirurgia de catarata costuma ser mais simples do que corrigir depois.

Astigmatismo baixo também atrapalha a lente multifocal comum?
Pode atrapalhar, sim. Mesmo graus baixos de astigmatismo não corrigido reduzem a nitidez que uma lente multifocal se propõe a entregar.

Agende sua avaliação de córnea antes de decidir a lente

Se você já sabe que tem astigmatismo e vai operar catarata, a pergunta certa não é “preciso de lente especial?” — é “o meu astigmatismo entra na faixa que muda a decisão, e eu também quero resolver a presbiopia junto?” Só a topografia de córnea, feita na avaliação, responde isso com precisão para o seu caso.

Agende sua consulta com a Dra. Flávia Keiko Ichida no Instituto de Olhos Campinas.


Conteúdo revisado pela Dra. Flávia Keiko Ichida, especialista em Oftalmologia — CRM 111925 / RQE 47907.

Referências

  1. Post-Approval Study of the TECNIS Toric IOL — prevalência de astigmatismo corneano em candidatos à cirurgia de catarata.
  2. American Academy of Ophthalmology (AAO). Astigmatism Correction at the Time of Cataract Surgery.
  3. Sociedade Brasileira de Catarata e Cirurgia Refrativa (BRASCRS). Lentes tóricas e correção de astigmatismo.
  4. Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO). Avaliação pré-operatória em cirurgia de catarata.

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