Membrana epirretiniana: o que é e quando precisa de tratamento

A data da cirurgia de catarata estava praticamente marcada. Faltavam os exames pré-operatórios: a biometria, que calcula a lente, e o OCT, que mostra a retina em corte. O laudo do OCT voltou com uma linha que ninguém esperava: “membrana epirretiniana em olho direito”. A visão daquele olho estava embaçada, sim, mas a explicação parecia ser a catarata. E vieram as perguntas: a catarata ainda pode ser operada? Vou precisar de duas cirurgias? A lente que eu tinha pensado continua valendo?

A membrana epirretiniana é um dos achados mais comuns do OCT depois dos 60 anos, e na maior parte das vezes não precisa de tratamento. Mas, quando ela aparece no mesmo olho que vai operar a catarata, muda o que se pode esperar da cirurgia — e é melhor que essa conversa aconteça antes dela, não depois.

O que é membrana epirretiniana?

Membrana epirretiniana é uma camada fina de tecido que se forma sobre a superfície da mácula, a região central da retina. Quando é transparente e lisa, quase não interfere na visão; quando se contrai, enruga a retina por baixo e pode causar visão borrada no centro e linhas retas que parecem onduladas. Também é chamada de pucker macular ou maculopatia em celofane. Na maioria dos casos é leve e só exige acompanhamento.

Por que uma membrana cresce sobre a retina

A causa mais comum é o próprio envelhecimento do olho. Quando o gel vítreo se separa da retina — o descolamento de vítreo —, pequenas falhas podem ficar na superfície da retina, e células passam a se espalhar por ali, formando uma película. O National Eye Institute lista também como fatores de risco rasgadura ou descolamento de retina prévios, inflamação dentro do olho, trauma e cirurgias oculares anteriores.

O que decide se a membrana vai incomodar é o comportamento dessa película. Enquanto ela fica lisa, funciona como um celofane apoiado sobre uma página: o texto continua legível. Quando as células se contraem, o celofane encolhe e franze a página junto. As células que enxergam saem do lugar em que o cérebro espera encontrá-las, e a imagem chega deformada. É por isso que a mesma palavra no laudo pode significar um olho que enxerga 20/20 ou um olho que distorce a moldura da janela.

A maioria fica como está

A pergunta que mais pesa para quem acabou de ler o laudo é se a membrana vai piorar. O Blue Mountains Eye Study, na Austrália, fotografou a retina de mais de 2.300 pessoas com 49 anos ou mais e repetiu o exame cinco anos depois. Entre as membranas que já existiam, 38,8% ficaram estáveis, 25,7% regrediram e 28,6% aumentaram. Só 9,3% das formas leves, em celofane, evoluíram para a forma com pregas na retina nesse período. O mesmo estudo encontrou membranas novas em 9,1% de quem tinha operado catarata nesses cinco anos, contra 4,9% de quem não tinha.

Daí sai o critério que orienta a decisão: a presença da membrana no laudo não é indicação de tratamento. O que conta é o que ela faz com a visão daquela pessoa — se a distorção atrapalha a leitura, o trabalho, a direção — e se isso está mudando entre um exame e outro.

Quando a catarata está no mesmo olho

É aqui que a cena da abertura encontra resposta. Um estudo com dados do sistema público de saúde do Reino Unido, publicado no JAMA Ophthalmology em 2018, comparou 812 olhos com membrana epirretiniana operados só de catarata com cerca de 159 mil olhos sem a membrana. Os olhos com membrana ganharam, em média, cerca de três linhas de visão, contra quatro nos olhos sem membrana; 44,6% melhoraram três linhas ou mais e 7,1% pioraram. O edema na mácula depois da cirurgia apareceu em 8,6% dos olhos com membrana, contra 1,38% dos demais, e 6,5% acabaram precisando operar a membrana depois. Quem tinha visão de 20/40 ou pior antes da cirurgia foi quem mais se beneficiou.

Esses números respondem às três perguntas da abertura. A catarata pode, sim, ser operada — e muitas vezes melhora bastante a visão mesmo com a membrana. Nem sempre serão duas cirurgias: a maioria não precisou operar a membrana. Mas a expectativa precisa ser outra, o acompanhamento depois da cirurgia é mais atento ao edema da mácula, e a escolha da lente entra de novo na conversa. Lentes que dividem a luz entre longe e perto, como a lente multifocal, dependem de uma mácula com bom contraste para entregar o que prometem; uma membrana que já distorce pode mudar essa conta.

Situação O que costuma significar O que fazer
Membrana fina, sem distorção, achada em exame de rotina Forma leve, em celofane; muitas ficam estáveis ou regridem Acompanhar com OCT no intervalo combinado; nenhum tratamento agora
Distorção leve que não mudou entre dois exames Membrana estável Observar as linhas retas em casa, um olho de cada vez, e manter as revisões
Distorção ou visão central que piora entre exames e atrapalha leitura ou direção Membrana em contração Encaminhamento para avaliação cirúrgica com o especialista em retina
Membrana no mesmo olho que vai operar catarata A cirurgia de catarata costuma ajudar, com ganho menor e mais risco de edema na mácula Planejar antes: expectativa, cuidados após a cirurgia e escolha da lente
Laudo cita “pseudoburaco” ou “buraco lamelar” Falha aparente ou parcial no centro, muitas vezes causada pela própria membrana Acompanhamento com OCT; entenda a diferença em buraco macular
Visão que piora algumas semanas depois de operar a catarata Pode ser edema na mácula Falar com a clínica antes do retorno marcado
Sombra ou cortina no campo de visão, chuva de pontos escuros, perda súbita da visão Não é o padrão da membrana: pode ser rasgadura ou descolamento de retina Avaliação no mesmo dia: WhatsApp (19) 99193-2057; fora do horário, pronto-socorro oftalmológico — ver perda de visão súbita

Quando a membrana é operada

Quando a distorção passa a atrapalhar tarefas como ler e dirigir, o tratamento é cirúrgico: a vitrectomia com remoção da membrana, feita por cirurgião de retina, por encaminhamento. Não há colírio, vitamina ou laser que dissolva a película. O acompanhamento de retina clínica em Campinas fica com a parte que vem antes e depois: medir a membrana, comparar os exames e decidir, com o paciente, se a visão que ele tem hoje justifica uma cirurgia de retina.

Por que o OCT vem antes da catarata

A Dra. Flávia Keiko Ichida opera catarata no centro cirúrgico do Instituto de Olhos Campinas, e o OCT e a biometria ficam no mesmo endereço da consulta. O raciocínio clínico por trás da ordem dos exames é simples: a membrana entra no planejamento da catarata antes da cirurgia, não na explicação depois dela. Um olho que continua embaçado depois de uma cirurgia bem feita frustra o paciente; o mesmo resultado, previsto e explicado antes, vira uma decisão tomada com informação. O mapeamento de retina completa a avaliação da periferia, onde o OCT não alcança. Mais detalhes sobre o procedimento estão em cirurgia de catarata em Campinas.

A linha no laudo pré-operatório

A linha “membrana epirretiniana” no laudo pré-operatório não cancela a cirurgia de catarata nem condena o olho a duas operações. Ela muda o que se deve esperar e o que se deve combinar antes. Se essa linha apareceu no seu exame, leve o laudo à consulta com a Dra. Flávia Keiko Ichida: é ali que a palavra do OCT vira um plano para a sua visão — com a catarata, a lente e a retina na mesma conversa.

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Perguntas frequentes sobre membrana epirretiniana

Membrana epirretiniana é o mesmo que degeneração macular?

Não. A membrana é uma película que se forma sobre a retina e a enruga por fora; a degeneração macular é um desgaste das camadas mais profundas da mácula. Os sintomas podem ser parecidos, como distorção e borrão no centro, mas a causa, a evolução e o tratamento são diferentes. O OCT distingue as duas.

A membrana pode causar descolamento de retina?

A membrana em si não costuma descolar a retina. O que acontece é que as duas condições podem compartilhar a mesma origem — o descolamento do vítreo — e uma rasgadura antiga pode ser a causa da membrana. Por isso a avaliação inclui o exame da periferia da retina.

Tenho membrana em um olho. E o outro?

Pode aparecer com o tempo. No Blue Mountains Eye Study, 13,5% das pessoas que tinham membrana em um olho passaram a ter também no outro em cinco anos. Vale conferir cada olho separadamente em casa, olhando uma linha reta, e incluir os dois olhos nas revisões.

Óculos novos resolvem a distorção?

Óculos atualizados podem melhorar a nitidez quando há grau envolvido, e o National Eye Institute cita essa possibilidade nos casos leves. Mas eles não desfazem as pregas da retina: a parte da imagem que chega deformada continua deformada.

Se eu operar a membrana, a visão volta ao normal?

Não há como prometer isso. A cirurgia tira a película que puxa a retina, e a distorção costuma diminuir aos poucos, mas as células que ficaram deslocadas por muito tempo nem sempre voltam por completo ao lugar. É uma das razões para decidir com base na visão que a pessoa tem hoje e em como ela vem mudando.


Conteúdo revisado pela Dra. Flávia Keiko Ichida, especialista em Oftalmologia — CRM 111925 / RQE 47907.

Referências

  1. Fraser-Bell S, et al. Five-year cumulative incidence and progression of epiretinal membranes: the Blue Mountains Eye Study. Ophthalmology. 2003;110(1):34-40.
  2. Hardin JS, et al. Cataract Surgery Outcomes in Eyes With Primary Epiretinal Membrane. JAMA Ophthalmology. 2018;136(2):148-154.
  3. National Eye Institute. Macular Pucker. nei.nih.gov
  4. Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) — cbo.com.br

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