Apneia do sono e glaucoma: o que o sono tem a ver com o nervo óptico
O resultado da polissonografia chegou com uma palavra nova — apneia — e, junto dela, um aparelho que agora fica na mesa de cabeceira. Semanas depois, chega a hora da revisão do glaucoma, e você se lembra de uma manchete lida às pressas: “apneia do sono aumenta o risco de glaucoma”. Duas pastas, dois médicos, duas doenças. Elas se conversam? E o aparelho que você começou a usar ajuda ou atrapalha o olho?
Elas se conversam, sim — mas de um jeito mais discreto do que a manchete sugere. A apneia do sono aparece associada ao glaucoma em dezenas de estudos, e essa associação encolhe bastante quando se descontam os outros problemas de saúde que costumam vir junto com ela. Entender o tamanho real dessa ligação é o que separa a preocupação útil da preocupação que só tira o sono.
Apneia do sono causa glaucoma?
Não há prova de que cause. O que os estudos mostram é que pessoas com apneia obstrutiva do sono têm glaucoma com mais frequência, inclusive o glaucoma de pressão normal. A explicação mais aceita envolve a queda repetida de oxigênio e as oscilações da circulação durante a noite, que podem deixar o nervo óptico mais vulnerável. Na prática, quem tem apneia ganha um motivo a mais para ter o nervo examinado, e quem tem glaucoma deve contar ao oftalmologista se ronca ou para de respirar dormindo.
O que acontece no olho durante uma pausa respiratória
Na apneia obstrutiva, a garganta se fecha parcial ou totalmente durante o sono, várias vezes por hora. Cada pausa segue um roteiro: o oxigênio do sangue cai, o organismo reage com uma descarga de alerta, a pressão arterial dá um salto e a pessoa desperta parcialmente — quase sempre sem perceber — para voltar a respirar. Depois, tudo recomeça.
O nervo óptico é um tecido de consumo alto de oxigênio e com pouca reserva. A hipótese estudada é que esse ciclo de falta de oxigênio e de circulação instável, repetido noite após noite, funcione como um estresse a mais para as fibras do nervo — independentemente da pressão do olho. É por isso que a apneia costuma aparecer nas conversas sobre o glaucoma que avança mesmo com a pressão controlada, tema da página sobre glaucoma de pressão normal.
O tamanho do risco — e por que o número diminui
Um estudo populacional de Taiwan, publicado na revista Ophthalmology, acompanhou por cinco anos 1.012 pessoas com diagnóstico de apneia obstrutiva e 6.072 pessoas sem apneia, de perfil semelhante. O glaucoma de ângulo aberto foi diagnosticado em 11,26 a cada 1.000 pessoas por ano no grupo com apneia, contra 6,76 no grupo sem. Depois de descontar diabetes, hipertensão, obesidade, colesterol e outros fatores, o risco de receber o diagnóstico de glaucoma foi 1,67 vez maior em quem tinha apneia.
Uma revisão com metanálise publicada em 2023 na revista Eye reuniu 46 estudos e mais de 4,5 milhões de pessoas e mostrou algo que ajuda a calibrar a manchete. Somando os números brutos, quem tinha apneia parecia ter 3,66 vezes mais chance de ter glaucoma. Quando os pesquisadores descontaram idade, sexo e doenças como hipertensão, diabetes e problemas cardiovasculares, a diferença caiu para até 40% a mais.
A queda tem uma explicação simples: a apneia anda de mãos dadas com excesso de peso, pressão alta e diabetes, e várias dessas condições também mexem com a circulação do nervo óptico. Parte do que parecia efeito da apneia era efeito do conjunto. O que sobra depois do ajuste é real, mas moderado — um fator de risco a mais na conta, não uma sentença.
Um sinal que aparece no exame da pálpebra
Existe uma pista que às vezes surge no próprio consultório do oftalmologista: a pálpebra frouxa. Na chamada síndrome da pálpebra flácida, a pálpebra superior fica tão elástica que se vira com facilidade, e a pessoa costuma acordar com o olho vermelho e irritado, geralmente do lado em que dorme. Essa condição é muito associada à apneia.
Um estudo publicado no Journal of Glaucoma examinou 127 pessoas com apneia. Entre as que tinham a pálpebra flácida, 23% tinham glaucoma; entre as que não tinham, pouco mais de 5%. Os autores sugerem que a pálpebra pode servir de sinal para olhar o nervo com mais atenção. Na direção inversa, quem chega ao oftalmologista com esse tipo de pálpebra e nunca investigou o sono tem uma boa pergunta para levar ao clínico.
E o CPAP: ajuda ou atrapalha o olho?
O CPAP, o aparelho que mantém a via aérea aberta com um fluxo contínuo de ar, é o tratamento mais usado para a apneia moderada e grave. Uma metanálise publicada em 2025 no Journal of Clinical Sleep Medicine, com 15 estudos e 495 pacientes, avaliou o que ele faz com a pressão do olho. No conjunto, não houve diferença significativa. No uso prolongado, apareceu uma subida pequena, de cerca de 0,5 mmHg em média, e a pressão de irrigação do olho caiu um pouco. Os autores recomendam atenção, não suspensão.
A leitura prática é esta: o CPAP trata uma doença que afeta o coração, o cérebro e o próprio sono, e não deve ser interrompido por causa do olho. O que muda é que o oftalmologista precisa saber que você usa o aparelho, para considerar isso ao interpretar a pressão nas revisões.
Da situação à conduta
| Situação | Por que pesa | O que fazer |
|---|---|---|
| Diagnóstico de apneia e nenhum exame de olho recente | A apneia está associada a mais risco de glaucoma, que não dá sintomas no início | Fazer uma avaliação com exame do nervo óptico e medida da pressão do olho, como ponto de partida |
| Glaucoma e ronco alto, pausas na respiração percebidas por alguém ou sonolência durante o dia | Pode haver apneia ainda não diagnosticada | Contar ao oftalmologista e ao clínico; a investigação do sono é feita pelo médico do sono |
| Glaucoma que avança mesmo com a pressão dentro da meta | Fatores além da pressão, como os da circulação noturna, podem estar em jogo | Revisar o caso com quem acompanha o glaucoma e investigar o sono, se a história sugerir |
| Começou a usar CPAP | Alguns estudos mostram pequena variação da pressão do olho no uso prolongado | Manter o CPAP como prescrito e informar o uso na próxima revisão do glaucoma |
| Pálpebra que se vira com facilidade e olho vermelho ao acordar | Pálpebra flácida é muito associada à apneia e, nela, ao glaucoma | Avaliação oftalmológica e conversa com o clínico sobre o sono |
| Dor forte no olho com vermelhidão, halos coloridos e visão embaçada, ou perda súbita de visão | Situação aguda, não é o efeito lento da apneia | Fale com a clínica pelo WhatsApp (19) 99193-2057; fora do horário, procure atendimento oftalmológico urgente. Os sinais de crise estão em glaucoma de ângulo fechado |
Quem cuida de quê
A apneia é diagnosticada e tratada pelo médico do sono, a partir da polissonografia. O glaucoma é avaliado pelo oftalmologista, a partir do nervo óptico e da pressão do olho. Nenhum dos dois diagnósticos é feito pelo outro especialista, e é justamente por isso que a informação precisa atravessar de uma pasta para a outra.
Do lado do olho, o raciocínio é este: a apneia não entra no diagnóstico do glaucoma; ela entra na pergunta “por que este nervo está sofrendo, e o que mais pode estar pesando?”. A Dra. Flávia Keiko Ichida, que atua em glaucoma clínico no Instituto de Olhos Campinas, no Cambuí, examina o nervo, mede a pressão e a espessura da córnea e faz o OCT na própria clínica, comparando os resultados ao longo do tempo — e considera a história do sono quando ela ajuda a explicar o que os exames mostram. Ela é formada pela Unesp, com residência em Oftalmologia e fellowship em Catarata e Cirurgia Refrativa, e tem título de especialista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia.
Como funciona o acompanhamento está em tratamento de glaucoma em Campinas; o que cada exame mede, em exame de glaucoma; e o panorama da doença, em glaucoma e diagnóstico precoce.
As duas pastas
A polissonografia e o laudo do olho podem continuar em pastas separadas — o que não pode é a informação ficar presa em cada uma delas. Leve à consulta do glaucoma o diagnóstico de apneia, se você usa CPAP e desde quando. Leve ao médico do sono o diagnóstico de glaucoma. Com as duas histórias na mesma mesa, a pergunta “o meu sono está fazendo mal ao meu olho?” deixa de ser uma manchete e vira uma resposta sobre o seu nervo.
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Perguntas frequentes sobre apneia do sono e glaucoma
Ronco é a mesma coisa que apneia?
Não. Muita gente ronca sem ter apneia. A apneia se caracteriza por pausas ou reduções importantes da respiração durante o sono, e o diagnóstico é feito com a polissonografia. Ronco alto com pausas percebidas por quem dorme ao lado, engasgos noturnos e sonolência durante o dia são motivos para investigar.
Tenho apneia, mas a pressão do meu olho sempre foi normal. Estou livre do glaucoma?
Não necessariamente. O glaucoma pode se desenvolver com a pressão do olho dentro da faixa considerada normal, e a apneia aparece justamente entre os fatores estudados nesses casos. A avaliação do nervo óptico, e não apenas a medida da pressão, é o que responde a essa pergunta.
Quem tem apneia precisa de exame de glaucoma todo ano?
Não existe um intervalo único para todos. Uma primeira avaliação completa do nervo serve de ponto de partida; o intervalo seguinte é definido conforme o resultado, a idade, o histórico familiar e outros fatores de risco de cada pessoa.
Tratar a apneia faz o glaucoma melhorar?
Ainda não se sabe. Não há estudos suficientes mostrando que o tratamento da apneia desacelera o glaucoma, e as fibras do nervo que já se perderam não voltam. O tratamento da apneia continua indicado pelos benefícios para o coração, a pressão arterial e a qualidade do sono, e o glaucoma segue com o próprio tratamento.
Apneia em quem tem glaucoma é motivo para fazer polissonografia por conta própria?
A polissonografia é pedida pelo médico que investiga o sono, a partir dos sintomas e do exame. Se você tem glaucoma e sinais de apneia, o caminho é levar essa combinação ao clínico ou ao médico do sono, que decidem a investigação.
Conteúdo revisado pela Dra. Flávia Keiko Ichida, especialista em Oftalmologia — CRM 111925 / RQE 47907.
Referências
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- Cheong AJY, Wang SKX, Woon CY, et al. Obstructive sleep apnoea and glaucoma: a systematic review and meta-analysis. Eye (Lond). 2023;37(15):3065-3083. PMID: 36977937
- Kongchan P, Banhiran W, Chirapapaisan N, Kasemsuk N. The effect of continuous positive airway pressure therapy on intraocular pressure in patients with OSA: a systematic review and meta-analysis. J Clin Sleep Med. 2025;21(5):907-915. PMID: 39815722
- Muniesa MJ, et al. Floppy eyelid syndrome as an indicator of the presence of glaucoma in patients with obstructive sleep apnea. J Glaucoma. 2014. PMID: 23807350
- Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) — cbo.com.br
