Glaucoma de ângulo fechado: a crise que é emergência e os avisos que vêm antes

Foi numa noite comum: a sala com a luz baixa, a televisão ligada, e de repente as lâmpadas da rua ganharam um anel colorido em volta. O olho pesou, veio uma dor de cabeça de um lado só, e a visão ficou como se houvesse vapor no vidro. Você foi dormir — e de manhã tinha passado. Passou sozinho. Então não era nada?

Pode não ter sido nada. Mas essa sequência — penumbra, halos coloridos, olho pesado, alívio depois de dormir — é também a descrição de um ângulo de drenagem que se fechou por algumas horas e voltou a abrir. No glaucoma de ângulo fechado, o mesmo bloqueio pode acontecer sem voltar atrás: a pressão do olho sobe depressa e não desce sozinha.

O que é o glaucoma de ângulo fechado?

Glaucoma de ângulo fechado é o tipo em que a borda da íris (a parte colorida do olho) encosta na saída de drenagem do líquido interno e a bloqueia. Pode se instalar aos poucos, sem sintomas, ou de uma vez, numa crise com dor forte no olho, olho vermelho, visão embaçada, halos e náusea. A crise é emergência: sem tratamento, pode levar à cegueira em poucos dias, segundo o National Eye Institute.

Por que olhos menores e hipermétropes têm mais chance de tê-lo está na página sobre os tipos de glaucoma. Aqui, o foco é a crise: o mecanismo, como reconhecê-la e o que vem depois.

Por que a crise costuma começar na penumbra

O líquido que nutre a parte da frente do olho, o humor aquoso, é produzido atrás da íris e precisa passar pela pupila para chegar à drenagem. Em alguns olhos, a íris fica muito próxima do cristalino e essa passagem é estreita. Quando a pupila está a meio caminho — nem bem aberta, nem bem fechada —, o contato entre íris e cristalino aumenta, o líquido se acumula atrás da íris e a empurra para a frente, como uma vela que enche de vento. A borda da íris, então, tampa a saída.

É por isso que o cenário clássico envolve meia-luz: cinema, sala com a TV ligada, fim de tarde, celular no quarto escuro, além de remédios que dilatam a pupila. E é por isso que alguns episódios param sozinhos: com a luz forte e com o sono, a pupila se contrai, a íris se afasta da saída e o líquido volta a escoar.

A Academia Americana de Oftalmologia descreve visão borrada, halos e dor de cabeça ou dor no olho leves como possíveis sinais iniciais de uma crise. Mas faz uma ressalva importante: a maioria das pessoas com risco não tem sintoma nenhum antes dela. O aviso, quando aparece, vale muito; a falta dele não tranquiliza.

Como diferenciar a crise de enxaqueca ou conjuntivite

Dor de cabeça com enjoo faz pensar em enxaqueca; olho vermelho faz pensar em conjuntivite. O que separa a crise dessas duas é a combinação de três sinais.

  • A visão piora de forma contínua. Na conjuntivite, a turvação da secreção melhora ao piscar. Na crise, a córnea incha com a pressão alta e o embaçamento não clareia.
  • A dor é profunda e de um lado só. No olho e na testa do mesmo lado, sem ceder ao analgésico de costume. A enxaqueca, sozinha, não deixa o olho vermelho.
  • A pupila não acompanha a do outro olho. No espelho, a do olho afetado costuma estar mais aberta e reage pouco à luz.

Ter enxaqueca conhecida não protege: dor de cabeça com olho vermelho e visão embaçada do mesmo lado não deve ser atribuída a ela. Outras causas de dor e vermelhidão estão em olho vermelho: causas e tratamento.

O que fazer em cada situação

Situação O que pode indicar Conduta
Halos coloridos, olho pesado e visão embaçada na penumbra, que passaram depois de dormir Fechamento intermitente do ângulo Avaliação oftalmológica nos próximos dias, com exame do ângulo (gonioscopia); conte hora, ambiente e duração do episódio
Laudo com “ângulo estreito” ou “seio camerular estreito”, sem sintomas Anatomia de risco, ainda sem glaucoma Acompanhamento e decisão individual sobre laser preventivo; informar a condição a todo médico que prescrever remédios
Crise já tratada em pronto-socorro Ângulo fechado confirmado em um olho Seguimento para tratar a causa nos dois olhos e acompanhar pressão e nervo óptico
Dor forte no olho ou na testa de um lado, olho vermelho, visão embaçada que não clareia, halos, náusea ou vômito Crise de ângulo fechado Urgência, com janela de horas. WhatsApp da clínica (19) 99193-2057; fora do horário, atendimento oftalmológico urgente ou pronto-socorro. Não espere amanhecer

Se for crise: as próximas horas

Fale imediatamente com o Instituto de Olhos Campinas pelo WhatsApp (19) 99193-2057. Fora do horário (segunda a sexta, das 7h45 às 18h, e aos sábados, das 7h45 às 12h), procure atendimento oftalmológico urgente ou um pronto-socorro — e, na triagem, descreva “dor no olho com visão embaçada e olho vermelho”, não só “dor de cabeça e enjoo”.

Não espere para ver se passa: em casa não há como distinguir o episódio que se resolve da crise que não se resolve, e cada hora com a pressão muito alta pode deixar dano permanente no nervo óptico. Não pingue colírios do armário — alguns dilatam a pupila — e leve a lista dos remédios recentes.

No atendimento, primeiro se baixa a pressão com medicamentos. Depois, trata-se a causa — em geral com uma pequena abertura na íris feita a laser (iridotomia) e, em alguns casos, cirurgia. Esses procedimentos não são realizados no Instituto de Olhos Campinas; quando indicados, há encaminhamento. As situações em que o glaucoma chega à cirurgia estão em quando o glaucoma precisa de cirurgia; em quem também tem catarata, a cirurgia do cristalino pode entrar na conversa, tema de glaucoma e catarata.

Depois da crise: o outro olho

Os dois olhos costumam ter a mesma anatomia, e o National Eye Institute registra que o médico pode tratar os dois para prevenir novos episódios, mesmo quando só um foi afetado. O acompanhamento continua depois do laser, com a lógica de medir e ajustar descrita em tratamento de glaucoma em Campinas.

Ângulo estreito no laudo, sem crise: tratar antes?

Essa é a decisão que mais gera dúvida. O ZAP, publicado na revista The Lancet em 2019, acompanhou 889 pessoas de 50 a 70 anos com ângulo estreito nos dois olhos, encontradas por rastreamento na comunidade, na China. Cada participante recebeu laser em um olho; o outro ficou sem tratamento, como comparação. Em seis anos, só 5 dos 889 olhos sem laser tiveram crise aguda (contra 1 entre os tratados). O laser reduziu à metade a evolução da doença do ângulo (19 olhos tratados contra 36 sem tratamento), mas, com um risco tão baixo, os autores concluíram que o laser preventivo deve ser oferecido a quem tem o maior risco, e não a todos.

O resultado vem de uma população específica, mas confirma um raciocínio que a Dra. Flávia Keiko Ichida aplica a qualquer intervenção: a certa é a que vem no momento certo — nem antes, nem depois. Ângulo estreito sem sinais de fechamento pode ser acompanhado; com aderências, pressão subindo ou episódios de halos na penumbra, pede tratamento antes da crise. A Dra. Flávia atua em glaucoma clínico, com formação pela Unesp e título de especialista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia, e a gonioscopia que mostra como o ângulo está é feita no próprio Instituto, no Cambuí. Para a doença como um todo, o ponto de partida é a página sobre glaucoma e diagnóstico precoce; para a forma mais comum, sem crise, veja glaucoma de ângulo aberto.

Passou sozinho não quer dizer que acabou

Os halos nas luzes da rua, o olho pesado na sala escura, o alívio depois de dormir: se isso aconteceu com você, o ângulo pode ter se fechado e reaberto. Desta vez, passou sozinho. A consulta serve para saber se o seu ângulo é do tipo que pode ser apenas acompanhado ou do tipo que precisa de tratamento antes da próxima noite. E, se a crise vier agora — dor, olho vermelho e uma visão que não clareia —, não espere a manhã: fale com a clínica pelo WhatsApp (19) 99193-2057 ou procure atendimento urgente.

Agendar avaliação do ângulo com a Dra. Flávia Keiko Ichida

Perguntas frequentes sobre glaucoma de ângulo fechado

Dilatar a pupila no exame pode provocar uma crise?

É raro. Em um olho com ângulo muito estreito, o colírio de dilatação pode favorecer o fechamento; por isso, quando há suspeita, o ângulo é avaliado antes de dilatar. Isso não é motivo para evitar o exame de fundo de olho, que é importante. O que esperar da dilatação está em dilatação da pupila.

A crise pode atingir os dois olhos ao mesmo tempo?

Pode, mas o mais comum é começar em um olho. Quando os dois são afetados juntos, vale investigar remédios iniciados nas últimas semanas, porque alguns medicamentos de uso geral podem provocar fechamento do ângulo. Conte ao médico tudo o que começou a tomar recentemente.

A visão volta ao normal depois da crise?

O embaçamento causado pelo inchaço da córnea costuma melhorar quando a pressão baixa. O que o nervo óptico perdeu durante a crise, porém, não se recupera. Quanto menos tempo o olho passa com a pressão muito alta, menor o risco de perda permanente — daí a pressa no atendimento.

Depois do laser, ainda preciso de colírio?

Depende. O laser resolve o bloqueio na pupila, mas parte dos olhos continua com a pressão elevada, seja por aderências no ângulo, seja por dano prévio na drenagem. Nesses casos, o colírio continua. Mesmo sem colírio, o acompanhamento da pressão, do ângulo e do nervo óptico segue.

Dá para saber em casa se o meu ângulo é estreito?

Não com segurança. Uma lanterna de lado dá só uma pista grosseira. A forma confiável é a gonioscopia, feita com uma lente apoiada no olho durante a consulta.


Conteúdo revisado pela Dra. Flávia Keiko Ichida, especialista em Oftalmologia — CRM 111925 / RQE 47907.

Referências

  1. National Eye Institute (NEI) — Types of Glaucoma. nei.nih.gov
  2. American Academy of Ophthalmology (AAO) — Glaucoma Symptoms. aao.org
  3. He M, Jiang Y, Huang S, et al. Laser peripheral iridotomy for the prevention of angle closure: a single-centre, randomised controlled trial (ZAP). The Lancet. 2019;393(10181):1609-1618.
  4. Mayo Clinic — Glaucoma: symptoms and causes. mayoclinic.org
  5. Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) — cbo.com.br

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