Cirurgia de glaucoma: quando é necessária e o que ela muda

Há anos o colírio faz parte da rotina, pingado na mesma hora, com o frasco no mesmo canto da pia. Na revisão, os exames são comparados com os anteriores e a frase vem com calma, mas vem: “a pressão não está ficando onde precisa; está na hora de pensar em cirurgia”. No caminho de volta, duas perguntas disputam espaço. Se eu operar, me livro do colírio? E, se eu não operar, o que acontece?

A resposta curta muda o peso das duas. A cirurgia de glaucoma não devolve a visão perdida nem encerra o acompanhamento — e, em muitos olhos, também não encerra o colírio. O que ela faz é abrir uma nova saída para o líquido do olho quando a saída natural, mesmo ajudada por remédio, já não basta para proteger o nervo óptico.

Quando o glaucoma precisa de cirurgia?

A cirurgia de glaucoma costuma ser indicada em quatro situações: quando a pressão do olho continua acima da meta definida para aquele nervo, mesmo com os colírios tolerados; quando o nervo óptico continua perdendo fibras apesar da pressão aparentemente controlada; quando a pessoa não consegue usar os colírios por efeitos colaterais ou pela dificuldade de manter a rotina; e em alguns tipos de glaucoma que, desde o início, respondem mal ao remédio. Laser e cirurgia formam uma escala, e a indicação é individual.

A palavra-chave é meta: cada olho com glaucoma tem uma pressão-alvo, explicada em glaucoma tem cura?, e a cirurgia entra quando o colírio já não leva o olho até ela.

O que a cirurgia faz dentro do olho

O olho produz um líquido, o humor aquoso, que circula e sai por uma malha de drenagem no ângulo entre a íris e a córnea. No glaucoma, essa saída costuma funcionar mal. Os colírios diminuem a produção do líquido ou facilitam uma via alternativa; os procedimentos agem na própria saída, melhorando a passagem pela malha ou criando um desvio.

Isso explica o que a cirurgia promete e o que ela não promete. Ela baixa a pressão. Ela não regenera fibras do nervo óptico que já se perderam, e por isso a visão que já foi embora não volta. Ela não muda a doença de fundo: o desvio criado pode, com os anos, cicatrizar e perder eficiência, e é por isso que o acompanhamento continua.

Do laser à cirurgia com tubo: o que cada etapa faz

Procedimento Como age Quando costuma ser considerado O que planejar
Laser na malha de drenagem (trabeculoplastia seletiva, SLT) Estimula a malha a deixar o líquido passar melhor, sem corte Glaucoma de ângulo aberto e pressão alta no olho, inclusive como primeira opção em casos selecionados Feito em consultório; o efeito pode diminuir com os anos, e a pressão segue sendo medida
Laser na íris (iridotomia) Abre um pequeno orifício para o líquido passar quando o ângulo está estreito Ângulo fechado ou estreito com risco; ver glaucoma de ângulo fechado Não trata o glaucoma de ângulo aberto; o acompanhamento continua
Cirurgias minimamente invasivas (MIGS) Pequenos dispositivos ou cortes que facilitam a saída natural Glaucoma leve a moderado, às vezes junto com a cirurgia de catarata Recuperação mais rápida, redução de pressão em geral mais modesta
Trabeculectomia Cria uma pequena abertura na parede do olho, sob a pálpebra, por onde o líquido escoa Pressão alta apesar do tratamento, doença avançando ou meta de pressão baixa Várias revisões nas primeiras semanas; restrição de esforço por algumas semanas
Implante de drenagem (tubo) Um tubo fino leva o líquido para um reservatório na parte de trás do olho Olhos já operados, glaucomas mais difíceis de controlar ou quando a trabeculectomia é menos indicada Revisões frequentes no início; pode continuar precisando de colírio
Depois de qualquer procedimento: dor que aumenta, olho muito vermelho, secreção ou queda da visão Pode ser inflamação, infecção ou pressão fora do lugar Situação que não espera a próxima revisão Procure no mesmo dia a equipe que operou; fale com a clínica pelo WhatsApp (19) 99193-2057 ou busque atendimento oftalmológico urgente

Depois da cirurgia, o colírio acaba?

Às vezes. Muitas vezes, não. O Tube Versus Trabeculectomy Study, publicado no American Journal of Ophthalmology, acompanhou por cinco anos 212 pessoas com glaucoma não controlado, que já tinham passado por cirurgia de catarata ou de glaucoma, operadas com tubo ou com trabeculectomia. Ao fim de cinco anos, a pressão média estava entre 12,6 e 14,4 mmHg — um nível que costuma proteger o nervo —, mas os pacientes ainda usavam, em média, 1,2 a 1,4 colírio para glaucoma. A falha ao longo dos cinco anos foi de 29,8% no grupo do tubo e de 46,9% no da trabeculectomia, e 9% e 29%, respectivamente, precisaram de nova cirurgia de glaucoma.

Nesses estudos, “sucesso” quer dizer pressão dentro da faixa desejada, com ou sem colírio. Esse é o jeito certo de ler o resultado: o objetivo é o nervo estável, não o frasco vazio.

No laser, a conta costuma ser outra. No estudo LiGHT, publicado na The Lancet, 718 pessoas com glaucoma de ângulo aberto ou pressão alta no olho começaram o tratamento por laser ou por colírio. Três anos depois, 74,2% dos que fizeram laser mantinham a pressão na meta sem nenhum colírio, e nenhuma delas precisou de cirurgia de glaucoma, contra 11 no grupo que começou pelo colírio.

O que se troca ao operar

Toda cirurgia de glaucoma troca um risco por outro. De um lado, o risco que já está em curso: um nervo perdendo fibras, devagar e sem aviso. Do outro, os riscos do procedimento, concentrados sobretudo nas primeiras semanas — inflamação, pressão baixa demais, problemas na córnea e, mais adiante, a catarata — todos listados pelo National Eye Institute entre os riscos da cirurgia. Depois da trabeculectomia, há ainda uma atenção que dura a vida inteira: olho vermelho com dor ou secreção não deve ser tratado como conjuntivite comum.

Por isso, a pergunta de consultório não é “a cirurgia é perigosa?”, e sim “qual risco é maior para este olho agora?”. Quando o nervo está estável e a pressão está na meta com colírio bem tolerado, operar pode significar correr um risco desnecessário. Quando o nervo continua perdendo fibras, esperar é que passa a ser o risco. Num glaucoma já avançado no diagnóstico, o estudo britânico TAGS mostrou que começar pela trabeculectomia levou a pressões mais baixas que começar pelo colírio (12,4 contra 15,1 mmHg em dois anos), sem diferença na qualidade de vida — um dado que ajuda a entender por que, em alguns olhos, a cirurgia vem cedo.

Quem indica, quem opera e quem acompanha

No Instituto de Olhos Campinas, no Cambuí, o glaucoma é tratado clinicamente. A Dra. Flávia Keiko Ichida, que atua em glaucoma clínico, compara a pressão, o aspecto do nervo e o OCT ao longo do tempo para identificar o momento em que o tratamento com colírio deixou de ser suficiente — e explica ao paciente o que mudou nos exames para que essa etapa tenha se tornado necessária. Laser e cirurgia de glaucoma, isolados ou combinados à cirurgia de catarata, não são realizados na clínica: quando indicados, há encaminhamento. Depois do procedimento, a pressão e o nervo seguem sendo medidos, porque o glaucoma continua sendo uma doença crônica. Quem também tem catarata encontra o planejamento das duas em glaucoma e catarata; os primeiros meses de tratamento estão em tratamento de glaucoma em Campinas; e o panorama da doença, em glaucoma e diagnóstico precoce.

A palavra cirurgia

A frase “está na hora de pensar em cirurgia” assusta porque parece dizer que o tratamento falhou. Não diz. Diz que a saída do líquido do seu olho precisa de mais ajuda do que um colírio consegue dar — e que o nervo, que não avisa quando sofre, mostrou isso nos exames. Antes de decidir, a pergunta útil não é se você vai se livrar do colírio, e sim o que os seus exames mostram sobre o seu nervo e qual é o risco maior para ele agora. É essa resposta que a consulta organiza.

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Perguntas frequentes sobre cirurgia de glaucoma

A cirurgia de glaucoma é feita com anestesia geral?

Na maioria das vezes, não. A trabeculectomia e o implante de drenagem costumam ser feitos com anestesia local e um remédio para relaxar, e a pessoa volta para casa no mesmo dia, acompanhada de quem possa dirigir. Em crianças ou em situações específicas, a anestesia geral pode ser escolhida.

Quanto tempo de afastamento a cirurgia exige?

Depende do procedimento e da cicatrização. Depois da trabeculectomia ou do tubo, o National Eye Institute cita evitar pegar peso por duas a quatro semanas, e as revisões são frequentes nesse período.

Os dois olhos podem ser operados no mesmo dia?

Em geral, não. Cada olho tem a própria indicação, e o resultado de um costuma orientar o plano do outro. Mesmo quando os dois precisam de cirurgia, os procedimentos costumam ser feitos em datas diferentes.

O laser na malha de drenagem pode ser repetido?

Em alguns casos, sim. O efeito do laser pode diminuir com o tempo, e a repetição é uma das opções avaliadas antes de partir para cirurgia. A decisão depende de como o olho respondeu da primeira vez e de quanto a pressão precisa baixar.

Anos depois da trabeculectomia, olho vermelho é motivo de preocupação?

Sim, quando vem com dor, secreção ou piora da visão. A abertura criada pela cirurgia é uma porta de entrada possível para infecção, mesmo muito tempo depois. Nesses casos, a avaliação deve ser no mesmo dia, e não com colírio de conjuntivite usado por conta própria.


Conteúdo revisado pela Dra. Flávia Keiko Ichida, especialista em Oftalmologia — CRM 111925 / RQE 47907.

Referências

  1. Gedde SJ, Schiffman JC, Feuer WJ, et al. Treatment outcomes in the Tube Versus Trabeculectomy (TVT) study after five years of follow-up. Am J Ophthalmol. 2012;153(5):789-803. PMID: 22245458
  2. Gazzard G, Konstantakopoulou E, Garway-Heath D, et al. Selective laser trabeculoplasty versus eye drops for first-line treatment of ocular hypertension and glaucoma (LiGHT): a multicentre randomised controlled trial. The Lancet. 2019;393(10180):1505-1516. PMID: 30862377
  3. King AJ, Hudson J, Azuara-Blanco A, et al. Primary trabeculectomy versus primary glaucoma eye drops for newly diagnosed advanced glaucoma: TAGS RCT. Health Technol Assess. 2021. PMID: 34854808
  4. National Eye Institute. Glaucoma Surgery. nei.nih.gov
  5. Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) — cbo.com.br

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