Glaucoma e catarata ao mesmo tempo: como fica a cirurgia

Há anos você pinga o colírio do glaucoma todas as noites. Agora a visão ficou turva, as letras perderam o contorno, e o exame confirmou uma catarata. Junto com a notícia vem uma esperança: “Depois da cirurgia, eu vou enxergar como antes?”

É a pergunta certa, e a resposta tem duas partes. A cirurgia de catarata pode devolver o que a catarata tirou. O que o glaucoma tirou, ela não devolve — mas pode mudar a pressão do olho, a quantidade de colírios e até o jeito de acompanhar a doença daqui para a frente. Entender essas duas partes antes de operar é o que separa uma expectativa realista de uma decepção.

Quem tem glaucoma e catarata ao mesmo tempo: como tratar?

As duas doenças são tratadas em paralelo. O glaucoma segue com o tratamento de sempre, em geral com colírio, para proteger o nervo óptico. A catarata é operada quando passa a atrapalhar a vida — e a cirurgia é planejada levando em conta o tipo e o estágio do glaucoma, a pressão, os colírios em uso e a escolha da lente. Como diferenciar uma doença da outra está em catarata ou glaucoma; aqui, o assunto é o que acontece quando as duas estão no mesmo olho.

Dois tetos para a mesma visão

Pense na sua visão hoje como limitada por dois tetos. O primeiro é a catarata: o cristalino opaco espalha a luz, e a imagem chega borrada e sem contraste. Esse teto sai com a cirurgia, que troca o cristalino por uma lente transparente. O segundo é o glaucoma: as fibras do nervo óptico que já se perderam levaram com elas pedaços do campo de visão, e essas fibras não se regeneram. Esse teto fica.

Por isso, a pergunta “vou enxergar como antes?” depende de qual teto está mais baixo. Num glaucoma inicial, em que o nervo ainda tem quase todas as fibras, a catarata costuma ser o principal limite, e o ganho depois da cirurgia tende a ser grande. Num glaucoma avançado, que já atingiu a parte central do campo, a cirurgia ainda clareia a imagem, mas o ganho é menor — e saber disso antes evita a sensação de que “a cirurgia não deu certo”.

Estimar qual teto pesa mais é parte da avaliação: a acuidade visual, o exame do cristalino, o aspecto do nervo óptico e o histórico dos exames de glaucoma são lidos juntos. Há um detalhe que pouca gente sabe: a catarata também embaça os exames. Ela atrapalha a visualização do nervo e pode piorar o resultado do campo visual e do OCT. Depois da cirurgia, por isso, os exames de glaucoma costumam ser refeitos para criar um novo ponto de partida — os anteriores passam a ser comparados com cautela.

O que a cirurgia de catarata faz com a pressão do olho

Ao retirar o cristalino, que com a idade fica mais espesso e empurra a íris para a frente, a cirurgia abre espaço dentro do olho e, em muitos casos, facilita a saída do líquido. O efeito depende do tipo de glaucoma.

Um relatório da Academia Americana de Oftalmologia, publicado na Ophthalmology em 2015, reuniu 32 estudos com pacientes que controlavam o glaucoma com colírios. Depois da cirurgia de catarata, a pressão caiu em média 13% no glaucoma de ângulo aberto (com 12% menos colírios), 20% no glaucoma pseudoesfoliativo (com 35% menos colírios) e 30% no glaucoma crônico de ângulo fechado (com 58% menos colírios). Os autores ressaltam que há poucos dados sobre olhos com doença avançada ou pressão mal controlada antes da cirurgia.

Essas médias são boas notícias, mas não são promessa: algumas pessoas reduzem colírios, outras continuam com os mesmos. E a queda da pressão é um bônus, não um motivo para operar uma catarata que ainda não atrapalha — a indicação continua sendo o quanto a catarata pesa na sua vida.

Situação O que a cirurgia de catarata costuma fazer O que planejar
Glaucoma de ângulo aberto controlado com colírio Queda modesta da pressão, às vezes com menos colírio Manter o colírio até nova orientação; revisões mais próximas nas primeiras semanas
Pseudoesfoliação (com ou sem glaucoma) Queda maior da pressão; a pupila pode dilatar pouco e as estruturas que seguram o cristalino podem ser mais frágeis Informar o diagnóstico; a cirurgia é planejada com esse cuidado desde a consulta
Ângulo fechado crônico Queda mais acentuada, porque retirar o cristalino abre o ângulo A cirurgia pode fazer parte do tratamento do glaucoma; ver glaucoma de ângulo fechado
Glaucoma avançado ou pressão difícil de controlar Pouca evidência de quanto a cirurgia de catarata ajuda sozinha Pode ser indicada cirurgia de glaucoma antes ou junto — por encaminhamento; ver quando o glaucoma precisa de cirurgia
Usa colírio de corticoide depois da cirurgia e já reagiu a corticoide antes A pressão pode subir algumas semanas após a operação Avisar antes da cirurgia; medir a pressão nas revisões do pós-operatório
Dor forte, olho muito vermelho ou visão que piora nos dias após a cirurgia Pode ser subida importante da pressão, inflamação ou infecção Urgência: WhatsApp da clínica (19) 99193-2057; fora do horário, atendimento oftalmológico urgente

Os dias depois da cirurgia, para quem tem glaucoma

Para um olho sem glaucoma, uma pressão um pouco mais alta nas primeiras horas ou dias após a cirurgia costuma passar sem consequência. Para um nervo que já perdeu fibras, a mesma subida merece mais atenção — por isso as revisões das primeiras semanas tendem a ser mais próximas e a pressão é medida em todas.

Outro ponto é o colírio do pós-operatório. O anti-inflamatório usado depois da cirurgia de catarata muitas vezes é um corticoide, e em algumas pessoas ele sobe a pressão algumas semanas depois — o mecanismo está em corticoide e glaucoma. A forma de pingar e organizar os horários está em colírio após cirurgia de catarata. Quem já usa dois ou três colírios de glaucoma passa a ter uma rotina mais cheia nesse período, e vale levar a lista completa para a consulta pré-operatória.

A lente certa para um olho com glaucoma

Entre as perguntas que a Dra. Flávia Keiko Ichida faz antes de indicar uma lente intraocular, uma é decisiva aqui: o paciente tem alguma outra condição no olho — glaucoma, alteração de retina, olho seco? A resposta muda a conversa.

O motivo é óptico. As lentes multifocais dividem a luz entre focos para longe e para perto, e o preço dessa divisão é uma redução da sensibilidade ao contraste. Um olho saudável costuma compensar bem. Um nervo óptico que já perdeu fibras também já perdeu parte do contraste — e somar as duas perdas pode deixar a visão menos nítida do que se esperava. Quanto mais avançado o glaucoma, mais esse custo pesa, e mais a escolha tende a priorizar a qualidade da imagem. Num glaucoma inicial e estável, o leque de opções é mais amplo. Os tipos de lente estão em lente multifocal na catarata, e o processo de decisão está em qual é a melhor lente intraocular.

Quem cuida das duas

A Dra. Flávia é formada pela Unesp, com residência em Oftalmologia e fellowship em Catarata e Cirurgia Refrativa, e tem título de especialista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia. Ela atua em cirurgia de catarata e em glaucoma clínico — o que significa que a mesma médica que planeja a cirurgia acompanha a pressão e o nervo antes e depois dela. No Instituto de Olhos Campinas, no Cambuí, biometria, gonioscopia, paquimetria, OCT e microscopia especular são feitos no mesmo endereço.

A transparência também vale para o que não é feito ali: cirurgias de glaucoma, isoladas ou combinadas com a de catarata, não são realizadas na clínica e, quando indicadas, há encaminhamento. Como funciona a cirurgia no instituto está em cirurgia de catarata em Campinas; o acompanhamento do glaucoma, em tratamento de glaucoma em Campinas; e o panorama da doença, em glaucoma e diagnóstico precoce.

Como antes?

“Depois da cirurgia, eu vou enxergar como antes?” A parte que a catarata levou, a cirurgia pode devolver. A parte que o glaucoma levou, o acompanhamento protege para que não aumente. Antes de marcar a data, a consulta responde quanto de cada uma existe no seu olho — e é essa resposta que transforma a esperança em expectativa certa.

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Perguntas frequentes sobre glaucoma e catarata

Preciso parar os colírios do glaucoma antes da cirurgia de catarata?

Na maioria dos casos, não. O glaucoma continua precisando de controle até o dia da cirurgia e depois dela. Em situações específicas, algum colírio pode ser ajustado no período, mas essa orientação é individual e vem na consulta pré-operatória, nunca por conta própria.

Operar a catarata mais cedo ajuda a controlar o glaucoma?

No ângulo aberto, a queda da pressão costuma ser modesta e, sozinha, não justifica operar uma catarata que ainda não atrapalha. No ângulo fechado, a situação muda: retirar o cristalino pode fazer parte do tratamento, e o momento da cirurgia é discutido com esse objetivo.

Já fiz laser na íris por causa do ângulo estreito. Isso atrapalha a cirurgia de catarata?

Em geral, não. O pequeno orifício feito pelo laser não impede a cirurgia. Vale informar o procedimento e levar o relatório, porque ele ajuda a entender a anatomia do seu olho e o tipo de glaucoma no planejamento.

A cirurgia de catarata pode piorar o glaucoma?

A longo prazo, a pressão costuma ficar igual ou mais baixa do que antes. O risco está nos primeiros dias e semanas, quando pode haver picos de pressão pela inflamação ou pelo colírio de corticoide. Em olhos com glaucoma avançado, esses picos importam mais — por isso as revisões do pós-operatório são mais próximas.

A médica que opera a catarata também pode acompanhar o meu glaucoma?

No Instituto de Olhos Campinas, sim: a Dra. Flávia atua tanto em catarata quanto em glaucoma clínico, então o planejamento da cirurgia e o controle da pressão ficam com a mesma médica. Se em algum momento houver indicação de cirurgia de glaucoma, há encaminhamento para um serviço que a realize.


Conteúdo revisado pela Dra. Flávia Keiko Ichida, especialista em Oftalmologia — CRM 111925 / RQE 47907.

Referências

  1. Chen PP, Lin SC, Junk AK, Radhakrishnan S, Singh K, Chen TC. The Effect of Phacoemulsification on Intraocular Pressure in Glaucoma Patients: A Report by the American Academy of Ophthalmology. Ophthalmology. 2015;122(7):1294-1307. PMID: 25943711
  2. American Academy of Ophthalmology — Primary Open-Angle Glaucoma Preferred Practice Pattern. aao.org
  3. National Eye Institute (NEI) — Glaucoma; Cataracts. nei.nih.gov
  4. Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) — cbo.com.br

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