Corticoide e glaucoma: o risco do remédio que não é para o olho
“Usa algum remédio?” Você responde de cabeça: o da pressão, o do colesterol, a vitamina D. Fica de fora a bombinha da asma, porque “é só quando aperta”. Fica de fora o spray nasal da rinite, a pomada que o dermatologista passou para a pálpebra, a infiltração no joelho do mês passado e a prednisona do último surto da artrite. Nenhum deles é remédio de olho. Todos podem ter corticoide.
E é por isso que eles importam aqui. O corticoide é um dos remédios mais úteis da medicina, e quase sempre o benefício compensa. Mas ele pode subir a pressão dentro do olho, sem dor e sem aviso, mesmo quando foi receitado para o pulmão, a pele ou as articulações. A pergunta deste texto é dupla: por que um remédio que não é para o olho mexe com o olho — e o que fazer sem abandonar o tratamento que você precisa?
Corticoide pode causar glaucoma?
Pode. Em parte das pessoas, o corticoide dificulta a saída do líquido que circula dentro do olho, e a pressão intraocular sobe. Se essa pressão alta durar o suficiente para lesar o nervo óptico, surge o glaucoma induzido por corticoide. O risco depende da via (colírio, pomada, bombinha, comprimido, injeção), da dose, do tempo de uso e da sensibilidade do próprio olho.
Como um remédio do pulmão chega à drenagem do olho
O corticoide não age só onde foi aplicado. Ele atua em receptores presentes em células do corpo inteiro, inclusive nas células da malha trabecular, o tecido por onde o líquido do olho escoa. Nelas, o corticoide muda a estrutura de sustentação: aumenta o depósito de material entre as células, deixa o esqueleto interno delas mais rígido e reduz a “faxina” que mantém a passagem limpa. A resistência à saída do líquido aumenta, e a pressão sobe. O processo de drenagem em si está explicado em glaucoma de ângulo aberto.
Esse efeito não acontece em todo mundo. Algumas pessoas quase não reagem; outras respondem com subidas importantes. Quem reage é chamado, no jargão médico, de “respondedor ao corticoide” — e não há como saber de antemão quem é, a não ser medindo a pressão durante o uso.
O que pesa: via, dose e tempo
Para quem usa colírio de corticoide, o risco é conhecido e direto, porque o remédio está no próprio olho — o tema, com os números e o perigo do uso sem receita, está em o colírio do armário. A pergunta mais difícil é sobre as outras vias, e ela tem resposta em dois estudos da mesma base de dados de Québec, no Canadá, com cerca de 9.800 idosos que passaram a ter pressão ocular alta ou glaucoma, comparados com mais de 38 mil sem o diagnóstico.
Para o corticoide em comprimido, o estudo publicado na The Lancet em 1997 encontrou um risco cerca de 41% maior entre quem estava usando o remédio. E o risco crescia com a dose: 26% maior nas doses mais baixas e 88% maior nas mais altas, aumentando também com o tempo de uso ao longo do primeiro ano.
Para a bombinha e o spray nasal, o estudo publicado no JAMA no mesmo ano trouxe uma resposta mais tranquilizadora: no conjunto, o uso não esteve associado a mais pressão ocular alta ou glaucoma. A exceção foi quem usava doses altas de corticoide inalado, de forma regular, por três meses ou mais — nesse grupo, o risco foi cerca de 44% maior.
Os números pedem leitura cuidadosa. Eles mostram um aumento de risco moderado na população, não uma consequência provável para cada pessoa. A bombinha na dose habitual não é motivo de medo. O que os estudos dizem é onde vale prestar atenção: dose alta, uso prolongado e, sobretudo, um olho que já tem razões para ser sensível.
| Forma de corticoide | O que se sabe | O que fazer |
|---|---|---|
| Injeção dentro do olho ou ao redor dele | É a via com mais chance de subir a pressão; costuma fazer parte de tratamentos de retina e inflamação | O acompanhamento da pressão já faz parte do tratamento; não faltar às revisões |
| Colírio ou pomada oftálmica | Risco ligado à potência, à frequência e ao tempo de uso | Usar só com receita e medir a pressão durante tratamentos de mais de algumas semanas |
| Creme ou pomada na pálpebra e no rosto | Risco principalmente no uso crônico, como no eczema, e maior com glaucoma na família | Avisar o dermatologista e o oftalmologista; medir a pressão periodicamente se o uso for contínuo |
| Comprimido ou injeção no músculo, por tempo prolongado | Risco aumenta com a dose e com a duração | Avaliação oftalmológica no início de tratamentos longos, e revisões enquanto durar |
| Infiltração em articulação ou coluna | Pode subir a pressão em pessoas sensíveis, sobretudo em aplicações repetidas | Contar sobre as infiltrações na consulta, com datas aproximadas |
| Bombinha em dose alta por 3 meses ou mais | Pequeno aumento de risco nos estudos; maior com glaucoma na família | Medir a pressão do olho, sem interromper a bombinha |
| Spray nasal ou bombinha em dose habitual | A maioria dos estudos não mostra efeito relevante | Manter o tratamento; informar na consulta de rotina |
| Dor forte no olho, olho vermelho e visão embaçada de repente | Não é o padrão do corticoide, que sobe a pressão em silêncio — mas é sinal de urgência | Urgência: WhatsApp da clínica (19) 99193-2057; fora do horário, atendimento oftalmológico urgente |
Quem tem o olho mais sensível ao corticoide
A mesma dose pode não fazer nada em uma pessoa e subir bastante a pressão em outra. A Academia Americana de Oftalmologia lista como fatores de maior resposta:
- já ter glaucoma de ângulo aberto;
- ter pai, mãe, irmão ou irmã com glaucoma — o que muda nesse caso está em glaucoma hereditário;
- já ter tido subida de pressão com corticoide antes;
- miopia alta;
- diabetes tipo 1;
- doenças do tecido conjuntivo, como algumas doenças reumáticas;
- crianças pequenas e pessoas mais velhas.
Se você se encaixa em algum desses grupos e vai começar um tratamento longo com corticoide, a medida da pressão antes do início vale mais do que parece: ela vira o ponto de comparação para saber se o remédio mexeu ou não com o seu olho.
Não pare o corticoide por conta própria
Ler sobre o risco dá vontade de jogar a bombinha fora. Não faça isso. O corticoide está tratando algo que precisa ser tratado — uma asma, uma doença reumática, uma inflamação —, e interromper um corticoide oral usado por semanas pode ser perigoso para o corpo. Quem decide dose, troca ou suspensão é o médico que receitou.
O papel da consulta oftalmológica é outro: medir. Se a pressão está estável, o tratamento segue sem mudança. Se subiu, há caminhos, e eles são decididos em conjunto: o médico que prescreveu pode avaliar outra dose ou outra opção, e o oftalmologista pode tratar a pressão enquanto o corticoide for necessário.
A boa notícia é que a subida costuma ser reversível. Segundo a AAO, depois que o corticoide é suspenso, a pressão em geral volta ao normal em dias a poucas semanas; usos muito longos podem manter a pressão alta por mais tempo, e uma parte pequena dos pacientes continua com pressão elevada mesmo sem o remédio. O que não volta é o nervo óptico que já foi lesado — por isso medir cedo faz diferença.
Como é o acompanhamento
A Dra. Flávia Keiko Ichida atua em glaucoma clínico, com formação pela Unesp e título de especialista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia. Na avaliação de quem usa corticoide, a pergunta útil não é só se o remédio tem corticoide; é quanto dele chega ao olho, por quanto tempo e em qual olho. Uma bombinha em dose habitual num olho sem fator de risco e um comprimido em dose alta num olho míope, com glaucoma na família, pedem acompanhamentos muito diferentes.
No Instituto de Olhos Campinas, no Cambuí, a medida da pressão, o exame do nervo óptico, a paquimetria e o OCT são feitos no mesmo endereço da consulta — o que cada exame responde está em exame de glaucoma. Se a pressão subir e o nervo mostrar sinais de lesão, o caminho dos primeiros meses de tratamento está em tratamento de glaucoma em Campinas. O uso prolongado de corticoide também pode antecipar um tipo de catarata, tema de corticoide e catarata. E o panorama da doença está em glaucoma e diagnóstico precoce.
Coloque a bombinha na lista
“Usa algum remédio?” A resposta completa inclui o que não parece remédio de olho: a bombinha, o spray, a pomada da pálpebra, a infiltração, a prednisona do último surto. Nenhum deles precisa ser abandonado. Mas o olho de quem usa corticoide merece uma medida de pressão — e, na próxima consulta, a bombinha entra na lista.
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Perguntas frequentes sobre corticoide e glaucoma
Tomei prednisona por cinco dias. Preciso medir a pressão do olho?
Em geral, não. Cursos curtos raramente causam problema, porque a subida da pressão costuma depender de semanas de uso. A exceção é quem já tem glaucoma ou já reagiu ao corticoide antes: nesses casos, vale avisar o oftalmologista, que decide se é preciso antecipar a revisão.
Quem já tem glaucoma pode usar corticoide?
Pode, quando ele é necessário. O cuidado é avisar o médico que receita que você tem glaucoma e avisar o oftalmologista do novo remédio, para que a pressão seja medida depois do início ou de um aumento de dose. Em alguns casos, o oftalmologista ajusta o colírio do glaucoma durante o período de uso.
Como sei se um remédio que não é de olho tem corticoide?
Leia o princípio ativo na caixa ou na bula. Nomes como prednisona, prednisolona, dexametasona, betametasona, hidrocortisona, budesonida, fluticasona, beclometasona e mometasona são corticoides. Anti-inflamatórios comuns, como ibuprofeno e diclofenaco, não são. Na dúvida, leve a caixa ou uma foto para a consulta.
Criança que usa bombinha precisa ir ao oftalmologista por causa disso?
Na dose habitual, não há indicação de exame só por causa da bombinha; a criança segue as consultas da idade. O assunto merece conversa com o pediatra quando o uso é de dose alta por muito tempo, quando há corticoide em comprimido repetidas vezes ou quando existe glaucoma na família.
Se a pressão subir com o corticoide, eu vou ter glaucoma para sempre?
Não necessariamente. Pressão alta não é o mesmo que glaucoma: o glaucoma só existe quando o nervo óptico é lesado. Na maioria das pessoas, a pressão volta ao normal depois que o corticoide é reduzido ou suspenso. Por isso o objetivo do acompanhamento é perceber a subida antes que ela deixe marca no nervo.
Conteúdo revisado pela Dra. Flávia Keiko Ichida, especialista em Oftalmologia — CRM 111925 / RQE 47907.
Referências
- Garbe E, LeLorier J, Boivin JF, Suissa S. Risk of ocular hypertension or open-angle glaucoma in elderly patients on oral glucocorticoids. Lancet. 1997;350(9083):979-982. PMID: 9329512
- Garbe E, LeLorier J, Boivin JF, Suissa S. Inhaled and nasal glucocorticoids and the risks of ocular hypertension or open-angle glaucoma. JAMA. 1997;277(9):722-727. PMID: 9042844
- American Academy of Ophthalmology — EyeWiki: Steroid-Induced Glaucoma. eyewiki.org
- Harvey DH, et al. Glucocorticoid-Induced Ocular Hypertension and Glaucoma. Clin Ophthalmol. 2024. PMID: 38379915
- Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) — cbo.com.br
