Tipos de glaucoma: ângulo aberto, fechado e outros
Está escrito no relatório, numa sigla que ninguém explicou: “GPAA”. Ou então, num laudo de gonioscopia, a expressão “ângulo estreito”. Em casa, a busca por tipos de glaucoma devolve uma lista com dez nomes — aberto, fechado, de pressão normal, pigmentar, pseudoesfoliativo, neovascular, congênito — e a pergunta fica maior do que era: qual desses é o meu, e o que muda para mim?
Todos os tipos de glaucoma têm o mesmo ponto de chegada: um dano progressivo ao nervo óptico, o cabo de cerca de um milhão de fibras que leva a imagem do olho ao cérebro. O que os diferencia é o caminho até lá — onde o líquido do olho trava, se existe uma causa identificável e se a pressão estava alta ou não. O nome do diagnóstico não é um rótulo: ele resume as respostas a essas perguntas, e cada resposta muda o plano.
Quais são os tipos de glaucoma?
Os principais tipos de glaucoma são o de ângulo aberto (o mais comum, silencioso), o de ângulo fechado (que pode ser crônico ou se manifestar como crise de urgência), o de pressão normal, os secundários (causados por outra condição, como pseudoesfoliação, dispersão de pigmento, uso de corticoide, diabetes ou inflamação) e o congênito, raro, presente desde o nascimento.
O mecanismo explica a variedade de nomes. O líquido do olho, o humor aquoso, sai por uma malha de drenagem no ângulo entre a íris (a parte colorida) e a córnea. Quando a saída não dá conta da produção, a pressão sobe e comprime as fibras do nervo óptico — e alguns nervos sofrem até com pressão normal. O diagnóstico precisa responder a três perguntas.
Primeira pergunta: o ângulo de drenagem está aberto ou fechado?
Glaucoma de ângulo aberto. A entrada da drenagem está livre, mas a malha por onde o líquido passa funciona cada vez pior, ao longo de anos. A pressão sobe devagar, sem dor, e a perda começa pela periferia do campo visual. É a forma mais comum — detalhada na página sobre glaucoma de ângulo aberto.
Glaucoma de ângulo fechado. O problema é de espaço: a íris bloqueia a entrada da drenagem. É mais provável em olhos menores, como os hipermétropes, e aumenta com a idade, porque o cristalino cresce e empurra a íris para a frente. O fechamento pode ser lento e silencioso ou súbito, numa crise com dor intensa. A página sobre glaucoma de ângulo fechado aprofunda as duas formas.
O tipo menos comum não é o menos importante. Uma estimativa mundial publicada no British Journal of Ophthalmology calculou 60,5 milhões de pessoas com glaucoma em 2010, das quais 74% com a forma de ângulo aberto. Mas, das 8,4 milhões com cegueira nos dois olhos por glaucoma, 3,9 milhões tinham a forma de ângulo fechado — perto de metade da cegueira, vinda de cerca de um quarto dos casos. O mesmo estudo mostrou que, no ângulo fechado, 70% dos pacientes são mulheres e 87% têm ascendência asiática.
Parte da explicação é prática: o ângulo não aparece na medida da pressão nem no fundo de olho. É preciso olhar para ele, com uma lente apoiada no olho — a gonioscopia. Sem esse exame, um ângulo que se fecha pode passar anos sem nome.
Segunda pergunta: existe uma causa por trás?
Sem outra condição que o explique, o glaucoma é primário. Quando algo provoca o aumento da pressão, é secundário — e a causa entra no plano.
- Pseudoesfoliativo: um material esbranquiçado se acumula nas estruturas do olho e entope a drenagem. Tende a progredir mais rápido que o de ângulo aberto comum.
- Pigmentar: pigmento da íris se desprende e obstrui a malha. É mais frequente em adultos jovens míopes e pode dar visão borrada ou halos depois de exercício intenso. O glaucoma que aparece antes da meia-idade é tema da página sobre glaucoma em jovens.
- Induzido por corticoide: colírios, pomadas e outras formas de corticoide podem elevar a pressão em pessoas suscetíveis. O tema está em corticoide e glaucoma.
- Neovascular: vasos anormais crescem sobre o ângulo, em geral por diabetes ou oclusão de veia da retina.
- Uveítico: a inflamação dentro do olho, e às vezes o próprio tratamento com corticoide, eleva a pressão.
- Traumático: uma pancada, mesmo antiga, pode danificar o ângulo — vale contar na consulta.
Terceira pergunta: a pressão estava alta?
No glaucoma de pressão normal, o nervo óptico mostra o dano típico e o campo visual pode estar comprometido, mas as medidas de pressão ficam dentro da faixa considerada normal. Nesses olhos, o nervo parece tolerar menos pressão do que a média, e fatores como circulação e pressão arterial baixa entram na conta. Por isso pressão normal não descarta a doença, como mostra a página sobre pressão alta no olho. O tipo tem página própria: glaucoma de pressão normal.
Há ainda o glaucoma congênito, presente desde o nascimento e raro — cerca de 1 em cada 10 mil bebês, segundo o National Eye Institute.
O mapa dos tipos e o que fazer com cada um
| Tipo | O que acontece | Quem tem mais risco | Como costuma aparecer | Conduta |
|---|---|---|---|---|
| Ângulo aberto primário | A malha de drenagem perde eficiência ao longo de anos | Mais de 40 anos, história familiar, ascendência africana, miopia alta, diabetes | Sem sintomas por anos | Exame de rotina com pressão, nervo óptico e OCT; tratamento contínuo se confirmado |
| Pressão normal | O nervo sofre com pressão dentro da faixa normal | Ascendência japonesa, história familiar, pressão arterial baixa | Sem sintomas; achado no exame do nervo | Investigar o nervo mesmo com pressão normal; acompanhamento comparativo |
| Ângulo fechado crônico ou ângulo estreito | A íris se aproxima da drenagem e a bloqueia aos poucos | Hipermetropia, idade, sexo feminino, ascendência asiática | Pode ser silencioso; às vezes, dor leve e halos passageiros à noite | Gonioscopia; se indicado, procedimento a laser feito por encaminhamento |
| Secundários (pseudoesfoliativo, pigmentar, corticoide, neovascular, uveítico, traumático) | Outra condição eleva a pressão | Depende da causa | Variável; alguns progridem mais rápido | Tratar a pressão e a causa; informar todos os remédios em uso |
| Congênito | Drenagem malformada desde o nascimento | Bebês e crianças pequenas | Olhos grandes ou turvos, lacrimejamento, aversão à luz | Avaliação em serviço de oftalmologia pediátrica |
| Crise de ângulo fechado | A drenagem se bloqueia de uma vez e a pressão dispara | Os mesmos do ângulo fechado | Dor forte no olho, olho vermelho, visão embaçada súbita, halos, náusea | Urgência, com janela de horas. WhatsApp da clínica (19) 99193-2057; fora do horário, atendimento oftalmológico urgente |
O nome do glaucoma é a primeira linha do plano
Na maioria dos tipos, o tratamento começa por colírios que baixam a pressão, com a lógica de medir, comparar e ajustar descrita em tratamento de glaucoma em Campinas. O tipo muda o resto: no ângulo fechado, é preciso abrir caminho para o líquido, em geral com laser, feito por encaminhamento (não é realizado na clínica); nos secundários, a causa entra no plano; na pressão normal, o nervo pesa mais que o número.
A Dra. Flávia Keiko Ichida atua em glaucoma clínico — diagnóstico, definição do tratamento com colírio e acompanhamento —, com formação pela Unesp e título de especialista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia. No Instituto de Olhos Campinas, a gonioscopia, a paquimetria (espessura da córnea) e o OCT ficam no mesmo endereço da consulta. O raciocínio que orienta essa investigação é que a pergunta “o ângulo está aberto?” só se responde olhando — e a resposta define se o tratamento será só colírio ou se outro passo precisa vir antes. Para a doença em si, o ponto de partida é a página sobre glaucoma e diagnóstico precoce; o que se sente em cada fase está em sintomas de glaucoma.
Qual desses é o seu?
A sigla no relatório e o “ângulo estreito” no laudo não precisam continuar sendo uma lista de dez nomes. Cada um deles responde a três perguntas — o ângulo, a causa, a pressão — e é dessas respostas que sai o que você vai fazer a partir de agora. Se o seu diagnóstico ainda não tem essas respostas, ou se você nunca soube se o seu ângulo foi examinado, a consulta é o lugar para transformar o nome em plano.
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Perguntas frequentes sobre os tipos de glaucoma
Ângulo estreito é o mesmo que glaucoma?
Não. Ângulo estreito descreve a anatomia: a íris está mais próxima da drenagem do que o habitual. É um estado de risco, que pode nunca evoluir ou pode levar a fechamento. O glaucoma só existe quando há dano ao nervo óptico. Quem tem ângulo estreito precisa de avaliação para decidir se acompanha ou se trata preventivamente.
Os dois olhos sempre têm o mesmo tipo de glaucoma?
Em geral o tipo é o mesmo, mas a intensidade pode diferir bastante, e nos secundários a causa pode afetar só um lado. Por isso cada olho é acompanhado separadamente.
O tipo de glaucoma pode mudar com o tempo?
Pode. Como o cristalino cresce com a idade, um ângulo que era aberto pode se estreitar anos depois. Também é possível ter mais de um mecanismo ao mesmo tempo. É uma das razões para repetir a avaliação do ângulo durante o acompanhamento, e não só no diagnóstico.
Quem tem ângulo estreito pode tomar qualquer remédio?
Alguns medicamentos que dilatam a pupila — certos antialérgicos, descongestionantes, antidepressivos e remédios para náusea, por exemplo — podem favorecer uma crise em quem tem ângulo estreito não tratado. Informe essa condição a todo médico que receitar algo e leia a bula com atenção.
Quem já operou catarata ainda pode ter glaucoma de ângulo fechado?
O risco costuma cair bastante, porque a lente implantada é bem mais fina que o cristalino e o ângulo tende a se abrir depois da cirurgia. Mas outros tipos de glaucoma, como o de ângulo aberto, continuam possíveis — o acompanhamento segue.
Conteúdo revisado pela Dra. Flávia Keiko Ichida, especialista em Oftalmologia — CRM 111925 / RQE 47907.
Referências
- Quigley HA, Broman AT. The number of people with glaucoma worldwide in 2010 and 2020. British Journal of Ophthalmology. 2006;90(3):262-267. PubMed PMID: 16488940.
- National Eye Institute (NEI) — Types of Glaucoma. nei.nih.gov
- National Eye Institute (NEI) — Glaucoma. nei.nih.gov
- Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) — cbo.com.br
