Glaucoma e dirigir: o que muda quando o campo de visão não está inteiro

O cruzamento é o mesmo de todos os dias. Você olha, não vem ninguém, avança — e uma buzina comprida vem da esquerda. O carro estava ali. “Apareceu do nada”, você diz depois, ainda com o coração acelerado. Na última consulta, as letras do quadro foram lidas até a penúltima linha. Então o que a visão teria a ver com isso?

Porque, no glaucoma, ler bem as letras e enxergar o trânsito inteiro são coisas diferentes. A tabela de letras mede o centro da visão; o glaucoma começa a tirar pedaços do campo ao redor dele. E é nesse campo ao redor que ficam o carro que cruza, a moto que ultrapassa e o pedestre que desce da calçada.

Quem tem glaucoma pode dirigir?

Na maioria dos casos, sim — sobretudo no glaucoma inicial, quando o campo de visão ainda está preservado. O diagnóstico, sozinho, não tira ninguém do volante. O que decide é o estado do campo visual dos dois olhos juntos, e não a pressão do olho nem a leitura da tabela de letras. Quando a perda de campo avança, a avaliação passa a discutir adaptações, limites de horário e trajeto e, em alguns casos, parar de dirigir.

O que o glaucoma tira — e por que você não percebe

O glaucoma danifica as fibras do nervo óptico, e cada grupo de fibras perdido corresponde a uma área do campo de visão que deixa de mandar informação. Essas áreas costumam começar fora do centro, por isso a leitura continua boa por muito tempo. A perda também não aparece como uma mancha preta: o cérebro tende a preencher o espaço com o que está em volta, como explica a página sobre sintomas de glaucoma.

Há um segundo motivo, que pesa muito ao volante: você dirige com os dois olhos. Os campos de visão do olho direito e do esquerdo se sobrepõem em grande parte. Quando o glaucoma tira uma área de um olho só, o outro olho costuma cobrir a falha, e o campo dos dois juntos continua completo. O problema começa quando os dois olhos perdem a mesma região. Aí não sobra quem cubra — e é exatamente essa falha compartilhada que deixa um carro entrar na cena “do nada”.

Por isso, a pergunta que importa para dirigir não é “como está cada olho”, e sim “o que sobra quando os dois trabalham juntos”. O exame de campo visual testa um olho de cada vez; a leitura para o trânsito sobrepõe os dois resultados.

O que os estudos mostram

Um estudo populacional publicado na revista Ophthalmology acompanhou o histórico de 2.000 motoristas com 70 anos ou mais no estado do Alabama, nos Estados Unidos, usando os registros oficiais de acidentes dos cinco anos anteriores. Os 206 motoristas com glaucoma tinham uma taxa de acidentes em que foram considerados culpados 1,65 vez maior que a dos demais, já descontadas idade, sexo e condição cognitiva. Entre os motoristas com glaucoma, a perda grave de campo visual nos dois olhos juntos foi associada a uma taxa 2,11 vezes maior. A falha no lado esquerdo do campo foi a que mais pesou: 3,16 vezes.

Duas observações do mesmo estudo ajudam a entender o resto deste texto. Primeira: a acuidade visual — a leitura das letras — e a sensibilidade ao contraste não mostraram associação com os acidentes. O que pesou foi o campo. Segunda: é um estudo de associação, com motoristas idosos de outro país, e não diz que todo motorista com glaucoma vai se acidentar. Diz onde olhar.

Da situação do campo à conduta

Situação O que pesa para dirigir O que fazer
Glaucoma inicial, campo visual normal ou quase Em geral, pouco ou nada Manter o tratamento e as revisões; o objetivo é que o campo continue assim
Falha de campo em um olho só, coberta pelo outro O campo dos dois olhos juntos pode estar completo Atenção redobrada ao olho bom: se ele também começar a perder, o cenário muda
Falhas nos dois olhos na mesma região Área do campo sem cobertura — maior risco de não ver o que vem daquele lado Discutir na consulta adaptações de trajeto, horário e hábitos; considerar se é hora de reduzir
Perda avançada, campo restrito ao centro Limitação importante para o trânsito Conversa franca sobre parar de dirigir, envolvendo a família
Glaucoma com catarata A catarata soma embaçamento e ofuscamento à perda de campo Avaliar o peso de cada uma; ver glaucoma e catarata
Dificuldade que aparece principalmente à noite Pode ter outras causas além do glaucoma Investigar; ver dificuldade para dirigir à noite
Perda súbita de visão, ou dor forte no olho com vermelhidão, halos e visão embaçada Situação aguda, não é a perda lenta do glaucoma Não dirija. Peça ajuda e fale com a clínica pelo WhatsApp (19) 99193-2057; fora do horário, atendimento oftalmológico urgente

Sinais ao volante que merecem ser contados na consulta

Como a perda de campo não é sentida, as pistas costumam vir do comportamento, e quase sempre parecem distração:

  • carros, motos ou bicicletas que “aparecem do nada”, sempre do mesmo lado;
  • raspões no retrovisor, no portão ou em pilares da garagem que antes não aconteciam;
  • sustos ao trocar de faixa, mesmo depois de olhar o espelho;
  • alguém da família comentando que você não viu um pedestre ou uma placa lateral.

Vale anotar quando e de que lado isso acontece. Essa informação, levada à consulta, ajuda a ler o campo visual com outros olhos — e a decidir se ele mudou.

Enquanto isso, alguns hábitos reduzem o risco: virar a cabeça, e não só os olhos, antes de cruzamentos e trocas de faixa; manter os retrovisores bem regulados; preferir trajetos conhecidos e horários de menos movimento. Eles ajudam, mas não substituem a avaliação — e não recuperam o campo perdido.

Quem responde a pergunta “posso dirigir?”

A resposta não está na pressão do olho nem na última linha lida da tabela. Está no campo dos dois olhos, na velocidade com que ele vem mudando e em como você usa o carro no dia a dia. A Dra. Flávia Keiko Ichida, que atua em glaucoma clínico no Instituto de Olhos Campinas, no Cambuí, lê esses elementos juntos: o nervo óptico, o OCT e a medida da pressão — feitos na própria clínica — e os laudos de campo visual que você já tem, comparados ao longo do tempo. Ela é formada pela Unesp, com residência em Oftalmologia e fellowship em Catarata e Cirurgia Refrativa, e tem título de especialista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia.

Sobre a carteira de habilitação, vale separar os papéis: a avaliação oftalmológica descreve o que o seu olho entrega e orienta você; os critérios para obter ou renovar a CNH são aplicados no exame médico do trânsito. Levar laudos atualizados ajuda nas duas conversas. Como funciona o acompanhamento contínuo está em tratamento de glaucoma em Campinas, e o panorama da doença em glaucoma e diagnóstico precoce.

O carro que veio da esquerda

O carro do cruzamento não apareceu do nada. Ele estava numa parte do campo que, naquele momento, nenhum dos dois olhos entregou ao cérebro — ou que um olho entregou e o susto não deixou perceber. A consulta mostra onde estão as áreas que faltam, se os dois olhos se cobrem e se isso está mudando. Com essa resposta, a decisão sobre o volante deixa de depender da próxima buzina.

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Perguntas frequentes sobre glaucoma e direção

Nunca tive um acidente. Isso quer dizer que meu campo de visão está bom?

Não necessariamente. Muitas pessoas compensam sem perceber — dirigem mais devagar, evitam a noite ou trajetos movimentados. Um histórico sem acidentes é uma boa notícia, mas não substitui o exame: o campo pode estar mudando antes de qualquer susto.

Pingar o colírio do glaucoma antes de dirigir atrapalha?

Alguns colírios deixam a visão turva por alguns minutos logo depois da aplicação, e certos tipos contraem a pupila, o que pode escurecer a visão à noite. Se você percebe isso, organize os horários para não pegar o volante logo após pingar e comente na consulta — às vezes há alternativa.

Quem tem glaucoma pode pilotar moto ou andar de bicicleta no trânsito?

O critério é o mesmo do carro: o campo de visão dos dois olhos juntos. Na moto e na bicicleta, a visão lateral pesa ainda mais, porque não há retrovisores amplos nem a proteção da carroceria. Quem já tem perda de campo nos dois olhos deve discutir essa situação especificamente na consulta.

Se eu tratar o glaucoma, o campo de visão volta?

Não. As áreas do campo que já se perderam não se recuperam, porque as fibras do nervo não se regeneram. O tratamento serve para proteger o que existe — e é por isso que, para quem dirige, começar cedo e manter a regularidade faz diferença. O que o tratamento consegue fazer está em glaucoma tem cura?

Devo parar de dirigir assim que recebo o diagnóstico?

Não. O diagnóstico de glaucoma, por si só, não impede ninguém de dirigir. A decisão depende do estado do campo visual e de como ele evolui. Para a maioria das pessoas com doença inicial e tratada, dirigir continua possível por muitos anos.


Conteúdo revisado pela Dra. Flávia Keiko Ichida, especialista em Oftalmologia — CRM 111925 / RQE 47907.

Referências

  1. Kwon M, Huisingh C, Rhodes LA, McGwin G Jr, Wood JM, Owsley C. Association between glaucoma and at-fault motor vehicle collision involvement among older drivers: a population-based study. Ophthalmology. 2016;123(1):109-116. PMID: 26459997
  2. American Academy of Ophthalmology — Primary Open-Angle Glaucoma Preferred Practice Pattern. aao.org
  3. National Eye Institute (NEI) — Glaucoma. nei.nih.gov
  4. Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) — cbo.com.br

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