Microscopia especular: o que a contagem de células da córnea muda antes da catarata

A cirurgia de catarata está marcada e os exames pré-operatórios voltaram. Na biometria, nada a comentar. Mas na folha da microscopia especular há uma linha que ninguém explicou: “densidade endotelial: 1.850 células/mm². Polimegatismo moderado. Presença de guttata.” A palavra “células” e a palavra “baixa” juntas soam como um aviso. E a pergunta que acompanha você até a próxima consulta é direta: com essa contagem, ainda dá para operar a catarata?

Na maior parte dos casos, dá. O que a contagem muda não costuma ser a decisão de operar, e sim o cuidado com a córnea durante e depois da cirurgia — e, em alguns casos, a ordem das coisas.

Microscopia especular: o que avalia

Microscopia especular é o exame que fotografa a camada mais interna da córnea, o endotélio, e conta quantas células existem por milímetro quadrado. Também mede se essas células têm tamanho e forma regulares e mostra a presença de guttata, pequenas saliências na face de trás da córnea. É rápido, indolor e muito usado antes da cirurgia de catarata.

As células que não se renovam

O endotélio é uma camada única de células na parte de trás da córnea. A função dele é de bomba: tirar continuamente a água que tende a entrar na córnea, mantendo-a fina e transparente. Quando essa bomba perde força, a córnea incha, a luz se espalha e a visão fica turva.

Em adultos, essas células praticamente não se multiplicam. Quando uma se perde, as vizinhas se esticam para cobrir o espaço. É por isso que o laudo fala em tamanho (polimegatismo é a variação de tamanho entre as células) e em forma (pleomorfismo é a perda do formato hexagonal típico): são marcas de quanto aquele endotélio já precisou se reorganizar.

Quanto se perde com o tempo — e por que isso tranquiliza

Um estudo publicado em 1997 na Investigative Ophthalmology & Visual Science fotografou o endotélio de 42 adultos saudáveis com o mesmo aparelho, com intervalo médio de 10,6 anos. A densidade média caiu de 2.715 para 2.539 células/mm², o que corresponde a uma perda de cerca de 0,6% ao ano, sem relação clara com a idade. No mesmo período, a variação de tamanho aumentou e a proporção de células hexagonais caiu de 67% para 64%.

Esse ritmo lento é o que dá sentido ao número do laudo. Ao longo da vida, a córnea saudável gasta pouco de uma reserva grande. Uma contagem abaixo da média, por si só, diz quanto de reserva aquele olho tem hoje — não que ele vá descompensar. O que preocupa é a combinação: pouca reserva somada a sinais de que a bomba já está trabalhando no limite.

Os sinais que pesam mais que o número

As diretrizes da Academia Americana de Oftalmologia (AAO) de 2023 para edema de córnea listam os fatores que aumentam o risco de a córnea inchar depois da cirurgia de catarata: visão embaçada ou ofuscamento ao acordar que melhora ao longo do dia, inchaço microscópico da superfície, espessamento da córnea, guttata confluente (muitas gotinhas unidas) e contagem central baixa. A mesma diretriz lembra dois limites do exame: a microscopia especular mostra a forma das células, mas não mede diretamente se a bomba está funcionando, e perde precisão quando a guttata é muito extensa.

Por isso ela raramente é lida sozinha. A paquimetria diz se a córnea já está mais espessa por acúmulo de água, e a sua própria rotina diz o resto: a visão costuma estar pior de manhã? Piora em dias úmidos ou depois do banho quente?

O que o laudo descreve e o que fazer com ele

O que aparece no laudo O que pode significar Conduta habitual
Contagem dentro do esperado para a idade, células regulares Endotélio com boa reserva Planejamento de rotina da cirurgia
Contagem abaixo da média, sem guttata e sem visão embaçada pela manhã Menos reserva, bomba funcionando Cirurgia pode seguir, com proteção extra da córnea no planejamento
Guttata esparsa, córnea com espessura normal Possível fase inicial de distrofia de Fuchs Registrar como ponto de partida; comparar em exames futuros
Guttata confluente, visão pior ao acordar, córnea espessa Bomba já no limite Avaliação de córnea antes de decidir quando e como operar a catarata
Exame sem contagem confiável Guttata extensa ou córnea turva atrapalhando a imagem Decisão apoiada em espessura, sintomas e exame clínico
Visão que piora muito, com dor ou olho vermelho, nos dias depois de uma cirurgia no olho Pode ser inchaço da córnea ou outra complicação Avaliação no mesmo dia — WhatsApp (19) 99193-2057; fora do horário, pronto-socorro oftalmológico

Guttata e distrofia de Fuchs

A presença de guttata é a marca da distrofia endotelial de Fuchs, uma doença em que as células do endotélio vão se perdendo mais rápido que o normal. Segundo a AAO, ela é mais comum em mulheres e em quem tem histórico na família, e pessoas na faixa dos 30 ou 40 anos podem tê-la sem saber, porque os sintomas costumam aparecer depois dos 50. A primeira queixa típica é justamente a visão turva ao acordar: com os olhos fechados durante o sono, a córnea não perde água por evaporação; ao longo do dia, ela “seca” e a visão clareia.

Quando Fuchs e catarata aparecem juntos, a conversa pode incluir a sequência das cirurgias — às vezes a catarata vem primeiro, às vezes é planejada em conjunto com um tratamento da córnea. Nos casos em que a córnea não se recupera, existe o transplante de córnea, hoje frequentemente feito trocando apenas a camada doente, por equipe de córnea especializada e por encaminhamento.

Quando o exame entra fora da catarata

A microscopia especular também pode ser pedida na avaliação para cirurgia refrativa, como exame complementar quando há alteração suspeita (ver exames para cirurgia refrativa), e para acompanhar córneas já operadas. No ceratocone, a questão costuma ser outra: o problema está na forma e na espessura da córnea, não nas células da bomba — por isso o acompanhamento se apoia em topografia e paquimetria, como descrito no acompanhamento do ceratocone em Campinas.

A contagem dentro do planejamento

No Instituto de Olhos Campinas, no Cambuí, a microscopia especular, a paquimetria e a biometria são feitas no mesmo endereço da consulta, e a cirurgia de catarata é realizada no centro cirúrgico da própria clínica. Para a Dra. Flávia Keiko Ichida, que atua em catarata e córnea, a contagem de células não responde se a catarata será operada; responde quanto cuidado a córnea vai exigir enquanto ela é operada. É uma informação que muda a técnica, a conversa sobre a recuperação e, em poucos casos, a ordem das etapas — e que precisa ser explicada antes, não descoberta depois.

Para entender como a cirurgia é feita, veja como é feita a cirurgia de catarata; para o panorama de riscos, riscos da cirurgia de catarata.

O 1.850 no laudo

Aquele número ao lado da palavra “células” não é uma sentença contra a cirurgia. É a medida de quanta reserva a sua córnea tem — e, junto com a espessura e com o que acontece com a sua visão pela manhã, ele diz como a catarata deve ser planejada. Se a dúvida ficou do tamanho do laudo, leve o laudo para a consulta. Agende a avaliação com a Dra. Flávia Keiko Ichida, traga a microscopia especular e conte como a sua visão está ao acordar: é essa combinação que transforma o 1.850 em plano.

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Se você ainda está escolhendo onde operar, veja também a página de cirurgia de catarata em Campinas.

Perguntas frequentes sobre microscopia especular

Algum colírio ou vitamina aumenta a contagem de células?

Não. Em adultos, as células do endotélio praticamente não se multiplicam, e nenhum colírio ou suplemento aumenta a contagem. Alguns colírios podem ajudar a aliviar o inchaço da córnea em situações específicas, mas não repõem células.

A microscopia especular dói ou dilata a pupila?

Não dói e não exige dilatar a pupila. Você apoia o queixo, olha para uma luz fixa e o aparelho captura as imagens em poucos segundos. Alguns modelos encostam levemente na córnea, depois de um colírio anestésico; outros fazem a captura sem nenhum contato.

Por que um olho tem contagem diferente do outro?

Diferenças pequenas entre os olhos são comuns. Uma diferença maior pode refletir cirurgia, inflamação ou trauma antigo em um dos olhos, ou uma distrofia que avança de forma assimétrica. Vale informar qualquer histórico de cirurgia, pancada ou inflamação naquele olho.

Quem já operou a catarata precisa repetir o exame?

Não como rotina. Ele é repetido quando há guttata ou contagem baixa antes da cirurgia, quando a visão piora sem outra explicação ou antes de um novo procedimento no mesmo olho.

A distrofia de Fuchs passa de pais para filhos?

Pode passar. O histórico familiar aumenta o risco, e algumas formas são herdadas de modo dominante, com chance de 50% de transmissão para cada filho. Quem tem parente com Fuchs pode mencionar isso na consulta, especialmente antes de uma cirurgia de catarata.


Conteúdo revisado pela Dra. Flávia Keiko Ichida, especialista em Oftalmologia — CRM 111925 / RQE 47907.

Referências

  1. Bourne WM et al. Central corneal endothelial cell changes over a ten-year period. Invest Ophthalmol Vis Sci. 1997 Mar. PMID 9071233.
  2. American Academy of Ophthalmology. Corneal Edema and Opacification Preferred Practice Pattern®. 2023. aao.org
  3. American Academy of Ophthalmology. What Is Fuchs’ Dystrophy? Eye Health. aao.org
  4. American Academy of Ophthalmology. EyeWiki — Fuchs’ Endothelial Dystrophy. eyewiki.aao.org
  5. Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) — cbo.com.br

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