Efeitos colaterais do colírio de glaucoma: o que cada classe causa e o que fazer

Foi numa foto de família que a diferença apareceu. Lado a lado, os dois olhos já não pareciam do mesmo rosto: um mais fundo, com a pálpebra de cima afundada e os cílios visivelmente mais longos. Justamente o olho que recebe, toda noite, o colírio do glaucoma. Em casa, a bula aberta sobre a mesa lista dezenas de reações possíveis, da ardência à falta de ar, sem dizer quais importam.

A dúvida que fica é dupla: isso é efeito do colírio — e, se for, é hora de parar? A primeira resposta costuma ser sim. A segunda, quase sempre, é não por conta própria. Os efeitos colaterais do colírio de glaucoma não são uma lista aleatória: cada família de remédio tem uma “assinatura” própria, e reconhecê-la é o que permite trocar com critério em vez de abandonar o tratamento.

Quais são os efeitos colaterais do colírio de glaucoma?

Dependem da classe do remédio. Os análogos de prostaglandina podem escurecer a íris, alongar os cílios e afundar a região ao redor do olho. Os betabloqueadores podem reduzir os batimentos cardíacos e provocar falta de ar em quem tem asma. A brimonidina pode causar alergia, boca seca e cansaço. A dorzolamida e a brinzolamida podem arder e deixar gosto amargo. Quase todos podem irritar a superfície do olho.

A irritação de superfície — ardência, vermelhidão, sensação de areia — é a queixa mais comum e tem muito a ver com o conservante do frasco; ela está explicada, com as soluções, em como funciona o colírio para glaucoma. Este texto trata do que vai além dela: os efeitos que dizem qual remédio está agindo onde não deveria.

Por que um colírio mexe com a pálpebra, os cílios e até o coração

Uma gota de colírio não fica só no olho. Parte dela banha a pele da pálpebra e a raiz dos cílios; parte escorre pelo canal lacrimal até o nariz e chega à circulação. O que acontece depois depende do alvo de cada remédio.

Os análogos de prostaglandina (como latanoprosta, travoprosta e bimatoprosta) baixam a pressão facilitando a saída do líquido do olho. Mas os receptores em que eles agem também existem nas células que produzem pigmento, no folículo dos cílios e na gordura que acolchoa o olho dentro da órbita. Por isso a íris pode escurecer, os cílios crescem e essa gordura pode diminuir, deixando o olho mais fundo — o conjunto que os oftalmologistas chamam de periorbitopatia associada às prostaglandinas.

Os betabloqueadores, como o timolol, reduzem a produção do líquido bloqueando receptores que também comandam o ritmo do coração e o calibre dos brônquios. A quantidade absorvida é pequena, mas em quem já tem coração lento, bloqueio cardíaco ou asma ela pode bastar para dar sintomas. A brimonidina age em receptores do sistema nervoso, o que explica a sonolência e a boca seca, e pode provocar alergia no olho que às vezes só aparece depois de meses de uso: numa série de casos publicada na revista Eye, a reação surgiu entre 5 e 15 meses após o início.

O olho mais fundo: quanto isso é comum

Mais do que costuma se imaginar. Um estudo publicado no Clinical & Experimental Ophthalmology e destacado pela Academia Americana de Oftalmologia examinou 105 pessoas que usavam análogo de prostaglandina em um olho só, comparando com o outro olho, sem colírio. Algum sinal de periorbitopatia apareceu em 93,3% dos que usavam bimatoprosta, em 70% dos que usavam travoprosta e em 41,4% dos que usavam latanoprosta. O afundamento da pálpebra de cima foi visto em 80%, 45% e 15,7%, respectivamente.

Dois detalhes mudam a leitura desses números. Primeiro, o efeito varia muito entre os remédios da mesma família, e isso abre espaço para troca. Segundo, segundo a revisão da AAO EyeWiki, as alterações costumam começar cerca de um a dois meses após o início e tendem a regredir, parcial ou totalmente, quando o remédio é suspenso ou substituído — algumas vezes em quatro a seis semanas. Já o escurecimento da íris é descrito como permanente.

Cada classe, seus efeitos e o que fazer

Classe (exemplos) Efeitos mais típicos O que fazer
Análogos de prostaglandina (latanoprosta, travoprosta, bimatoprosta) Olho vermelho, cílios mais longos, íris e pele da pálpebra mais escuras, olho mais fundo Não suspender; fotografar e mostrar na consulta. Se incomoda, há troca dentro da classe ou por outra classe
Betabloqueadores (timolol e outros) Visão um pouco turva ao pingar; no corpo, batimentos lentos, tontura, falta de ar, cansaço Informar asma, bronquite, doença do coração e remédios em uso. Falta de ar ou desmaio: contato no mesmo dia
Agonistas alfa-2 (brimonidina) Olho vermelho com coceira e pálpebra inchada, às vezes meses após o início; boca seca, sonolência A alergia costuma melhorar com a troca, não com antialérgico por conta própria. Relatar antes do retorno
Inibidores da anidrase carbônica em colírio (dorzolamida, brinzolamida) Ardência ao pingar, gosto amargo, visão borrada por alguns minutos Geralmente incômodo, não perigoso; contar na consulta se atrapalha a rotina
Mióticos (pilocarpina) Pupila pequena, visão escura à noite, dor na testa Cuidado ao dirigir à noite — ver glaucoma e dirigir; relatar a dor
Falta de ar, chiado, desmaio, batimento muito lento, inchaço importante do rosto ou dor forte no olho com queda da visão Reação que não espera a consulta Fale no mesmo dia pelo WhatsApp (19) 99193-2057 ou procure atendimento urgente; sintomas gerais graves vão ao pronto-socorro

Os colírios que combinam dois remédios no mesmo frasco somam os perfis das duas classes — vale saber quais estão dentro do seu.

O efeito colateral aponta o remédio — e isso orienta a troca

Em glaucoma clínico, área em que a Dra. Flávia Keiko Ichida atua no Instituto de Olhos Campinas, o raciocínio parte de uma observação simples: o efeito colateral costuma assinar o remédio que o causou. Olho fundo e cílios longos apontam para a prostaglandina; coceira com pálpebra inchada, para a brimonidina; cansaço e falta de ar, para o betabloqueador. Identificada a assinatura, a mudança é dirigida: trocar por outro remédio da mesma classe com menos efeito, mudar de classe, juntar dois remédios num frasco ou considerar o laser, descrito em quando o glaucoma precisa de cirurgia.

Parar sem plano faz o oposto: a pressão volta ao nível de antes, sem sintoma, enquanto o efeito colateral some. Quem acaba pulando doses por causa do incômodo encontra o que fazer em esqueci de pingar o colírio de glaucoma. E a troca só é feita olhando a meta de pressão daquele olho, explicada em glaucoma tem cura?, e medindo de novo depois.

Para quem está começando, os primeiros meses do tratamento — inclusive a calibração do esquema — estão em tratamento de glaucoma em Campinas; o panorama da doença, em glaucoma e diagnóstico precoce.

A foto de família

A diferença entre os dois olhos na foto não é vaidade nem exagero: é informação clínica, e das boas, porque mostra o efeito ao longo do tempo melhor do que qualquer relato. Separe uma foto de antes do colírio e uma de agora, leve o frasco — ou a lista de todos os que você usa — e traga também os sintomas do corpo que talvez nunca tenha ligado ao olho. Na consulta com a Dra. Flávia Keiko Ichida, no Instituto de Olhos Campinas, essas peças viram uma pergunta objetiva: qual remédio está causando isso, e qual pode substituí-lo sem perder o controle da pressão.

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Perguntas frequentes sobre efeitos colaterais do colírio de glaucoma

Tenho alergia a sulfa. Posso usar colírio de glaucoma?

Muitos colírios de glaucoma não têm relação com sulfa. A dorzolamida e a brinzolamida pertencem a uma família química próxima, mas a reação cruzada é descrita como baixa. Mesmo assim, informe a alergia antes de começar, para a escolha ser feita com essa informação.

Os remédios que tomo para o coração interferem com o colírio?

Podem. Betabloqueador em comprimido somado ao betabloqueador em colírio pode reduzir demais os batimentos, e a brimonidina não combina com alguns antidepressivos mais antigos. Leve a lista completa de remédios, inclusive os que não são para os olhos.

Engravidei ou estou amamentando e uso colírio de glaucoma. E agora?

Não suspenda sozinha, mas avise logo. A brimonidina é evitada durante a amamentação, pelo risco de efeitos no bebê, e o esquema pode ser ajustado nesse período. Ocluir o canto do olho por alguns minutos após pingar reduz a quantidade que chega à circulação.

Os efeitos aparecem logo ou podem surgir depois de anos de uso?

Os dois. A ardência aparece nos primeiros dias; as mudanças ao redor do olho costumam começar após um ou dois meses; e a alergia à brimonidina pode surgir depois de meses de uso tranquilo. Um efeito novo não significa que você “ficou sensível” à toa: vale relatar.

O olho mais fundo atrapalha a medida da pressão?

Pode atrapalhar. Quando a pálpebra fica mais firme e o olho mais recuado, a medida da pressão no consultório se torna mais difícil, segundo a revisão da AAO EyeWiki. É mais um motivo para relatar a mudança cedo, e não só quando ela incomodar na foto.


Conteúdo revisado pela Dra. Flávia Keiko Ichida, especialista em Oftalmologia — CRM 111925 / RQE 47907.

Referências

  1. Kucukevcilioglu M, Bayer A, Uysal Y, Altinsoy HI. Prostaglandin associated periorbitopathy in patients using bimatoprost, latanoprost and travoprost. Clin Exp Ophthalmol. 2014;42(2):126-131. Destacado em: American Academy of Ophthalmology, Editors’ Choice — Bimatoprost associated with higher incidence of periorbitopathy. aao.org
  2. American Academy of Ophthalmology. EyeWiki — Prostaglandin Associated Periorbitopathy. eyewiki.org
  3. American Academy of Ophthalmology. EyeWiki — Review of Topical Glaucoma Medications. eyewiki.org
  4. Watts P, Hawksworth N. Delayed hypersensitivity to brimonidine tartrate 0.2% associated with high intraocular pressure. Eye. 2002;16(2):132-135.
  5. Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) — cbo.com.br

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