Escavação do nervo óptico aumentada: o que o número do laudo significa

O motivo da consulta era trocar os óculos. No relatório que veio depois, entre o grau e a pressão do olho, apareceu uma linha que ninguém tinha explicado: “escavação do nervo óptico 0,6 em ambos os olhos — suspeita de glaucoma”. À noite, a busca na internet devolve fotos de nervos, gráficos e a palavra cegueira. E a pergunta fica martelando: 0,6 é muito? Eu tenho glaucoma ou não?

A resposta curta é que esse número, sozinho, ainda não responde. A escavação é uma medida de forma, não um diagnóstico. O que transforma o 0,6 em “é o seu jeito de ser” ou em “precisamos tratar” são três comparações que o laudo não mostra: com o tamanho do seu disco, com o outro olho e com o próprio nervo ao longo do tempo.

O que é escavação do nervo óptico?

Escavação é a depressão no centro do disco óptico — a parte do nervo que aparece no fundo do olho. No laudo, ela vem como uma fração (às vezes escrita “E/D” ou “C/D”): quanto do diâmetro do disco a escavação ocupa. Um valor de 0,3 quer dizer que a depressão ocupa 30% do disco; 0,6, que ocupa 60%. Escavação aumentada significa que essa proporção está acima do habitual, o que pode ser sinal de glaucoma — ou apenas a anatomia daquele olho.

Por que existe um buraco no nervo

O disco óptico é a porta de saída de cerca de um milhão de fibras nervosas que levam a imagem da retina ao cérebro. Elas chegam de todos os lados e se dobram para entrar no nervo, formando uma borda de tecido em volta — a chamada rima neurorretiniana. O centro, por onde não passam fibras, fica mais fundo e mais claro. Essa é a escavação.

Daí vem a lógica do glaucoma: quando fibras morrem, a borda afina, e o espaço vazio no centro aumenta. A escavação cresce porque a borda encolhe. O que interessa ao exame, portanto, é o que está em volta do buraco.

Por que o número sozinho engana

Duas pessoas com a mesma quantidade de fibras podem ter escavações muito diferentes, por causa do tamanho do disco. Num disco grande, as fibras se espalham por uma área maior, a borda fica mais fina, e sobra um centro amplo — uma escavação de 0,6 ou 0,7 pode ser apenas a anatomia daquele olho. Num disco pequeno acontece o contrário: as fibras ocupam quase todo o espaço, e uma escavação de 0,4 já pode significar perda de tecido.

Os números de um grande estudo populacional ajudam a calibrar. Na Holanda, o Estudo de Roterdã examinou o fundo de olho de cerca de 6.200 pessoas com 55 anos ou mais e mediu a escavação de cada uma. Ao exame clínico, a média foi de 0,3. Apenas 2,5% das pessoas tinham escavação acima de 0,7, e só 2,5% tinham uma diferença entre os dois olhos maior que 0,2. O mesmo estudo mostrou que o limite do “habitual” sobe conforme o disco aumenta, e que as pessoas com 75 anos ou mais tinham, em média, escavações cerca de 0,1 maiores que as de 55 a 74 anos.

O que transforma o número em resposta

1. A forma da borda

Num nervo saudável, a borda costuma ser mais larga na parte de baixo e na de cima do disco, e mais estreita nas laterais. O glaucoma tende a afinar primeiro justamente as partes de cima e de baixo, às vezes num ponto só, como um entalhe. Uma escavação grande e redonda, com borda regular, conta uma história diferente de uma escavação alongada na vertical, com a borda afinada num polo.

2. O outro olho

Os dois nervos de uma pessoa costumam ser parecidos. Quando um tem escavação claramente maior que o outro — sobretudo uma diferença acima de 0,2 —, isso pesa mais do que o valor absoluto de cada um, porque a anatomia raramente explica a assimetria sozinha.

3. O mesmo nervo, meses ou anos depois

É a comparação mais forte. Uma escavação de 0,7 que está igual há dez anos e uma de 0,5 que era 0,3 há três anos pedem condutas opostas. Por isso a primeira avaliação completa vale como ponto de partida. Como guardar e comparar esses exames ao longo do tempo está explicado na página de acompanhamento oftalmológico contínuo.

Essas comparações olham a estrutura. A outra metade da pergunta é a função — se já há perda de campo de visão —, e o que cada exame mede está em exames de glaucoma. Laudos de campo visual que você já tenha entram na mesma comparação.

O que o laudo diz e o que fazer com ele

O que aparece no laudo O que pode significar O que fazer
Escavação até 0,5, parecida nos dois olhos, pressão normal Achado comum na população Seguir a rotina de consultas indicada para a sua idade e risco
Escavação de 0,6 a 0,7 nos dois olhos, sem outra alteração Pode ser disco grande (variação anatômica) ou glaucoma inicial Avaliação completa do nervo, com tamanho do disco, OCT e pressão; registrar como ponto de partida e repetir
Diferença maior que 0,2 entre os olhos Assimetria pouco comum; merece investigação Consulta sem adiar por meses; trazer exames anteriores
“Afinamento da rima”, “entalhe” ou “hemorragia de disco” Sinais que pesam mais que o número da escavação Investigação de glaucoma; a hemorragia de disco está explicada em glaucoma de pressão normal
Escavação aumentada com pressão alta Os dois achados juntos reforçam a suspeita Completar a avaliação; o significado da pressão está em pressão alta no olho
Escavação maior que no exame anterior Possível progressão Levar os dois laudos à consulta; a comparação define a conduta
Perda súbita de visão, ou dor forte no olho com vermelhidão, halos e visão embaçada Não é a escavação: é uma situação aguda Urgência: WhatsApp da clínica (19) 99193-2057; fora do horário, atendimento oftalmológico urgente

“Suspeita de glaucoma” não é “glaucoma”

Quando o nervo tem aspecto que lembra glaucoma, mas os outros exames ainda não confirmam, o termo usado é suspeita. Ela não significa necessariamente começar colírio no mesmo dia. Em muitos casos, a conduta é documentar bem e reavaliar, para ver se o nervo muda. Em outros — pressão muito alta, assimetria marcante, sinais de perda de tecido —, o tratamento começa antes. Como são os primeiros meses quando o diagnóstico se confirma está em tratamento de glaucoma em Campinas.

Algumas situações exigem um olhar extra. Em olhos com miopia alta, o disco costuma ser inclinado e a escavação fica difícil de medir. E quando o disco chama mais atenção pela cor clara do que pela profundidade, a investigação passa a procurar outras causas além do glaucoma.

Quem lê o seu nervo

No Instituto de Olhos Campinas, no Cambuí, o glaucoma clínico é uma das áreas de atuação da Dra. Flávia Keiko Ichida, formada pela Unesp, com residência em Oftalmologia e fellowship em Catarata e Cirurgia Refrativa, e título de especialista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia. O exame do nervo no fundo de olho, o OCT, a paquimetria e a gonioscopia são feitos no mesmo endereço, o que permite ler o disco junto com a pressão, a córnea e o ângulo na mesma avaliação.

O raciocínio por trás dessa leitura é simples de dizer: escavação é forma; diagnóstico é história. Um número vira história quando é comparado — com o tamanho do disco, com o outro olho e com ele mesmo no próximo exame. O panorama da doença está em glaucoma e a importância do diagnóstico precoce.

O 0,6 do seu laudo

O 0,6 escrito no relatório dos óculos novos não é uma sentença nem um alarme falso. É o começo de uma pergunta que precisa de mais três respostas: o seu disco é grande ou pequeno, o outro olho é igual, e esse número vai mudar? Traga o laudo — e qualquer exame antigo que tiver. É a consulta que transforma a fração em resposta.

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Perguntas frequentes sobre escavação do nervo óptico

O que significa “E/D” ou “C/D” no laudo?

São abreviações da relação escavação/disco — em inglês, cup/disc. Às vezes aparecem com a letra V na frente (vertical), indicando que a medida foi feita no eixo de cima para baixo, onde o glaucoma costuma afinar primeiro a borda do nervo. O número que vem depois é a fração do disco ocupada pela escavação.

Por que cada médico escreveu um número diferente para a minha escavação?

No exame de fundo de olho, a escavação é estimada visualmente, e diferenças de 0,1 ou 0,2 entre examinadores são comuns. Também influenciam o tamanho da pupila e o aparelho usado. Por isso, para acompanhar a evolução, valem mais fotografia e OCT do nervo, que permitem comparar exames de forma mais objetiva.

A escavação pode diminuir com o tratamento?

Em adultos, as fibras que se perderam não voltam. Depois de uma queda grande da pressão, o aspecto do disco pode mudar um pouco, mas o objetivo do tratamento é outro: manter a escavação do mesmo tamanho nos exames seguintes, sinal de que o nervo está estável.

Escavação aumentada impede cirurgia refrativa ou de catarata?

Não impede por si só, mas entra na avaliação. Antes de uma cirurgia refrativa, vale registrar a pressão e o nervo, porque depois do laser a córnea fica mais fina e a medida da pressão tende a sair mais baixa do que a real. Na catarata, o estado do nervo ajuda a prever quanto a visão pode melhorar.

Preciso de pedido médico para avaliar a escavação?

Não. O exame do nervo óptico faz parte da consulta oftalmológica, e você pode marcar diretamente com o laudo que recebeu. Exames complementares, como o OCT, são indicados na consulta conforme o que o fundo de olho mostrar.


Conteúdo revisado pela Dra. Flávia Keiko Ichida, especialista em Oftalmologia — CRM 111925 / RQE 47907.

Referências

  1. Wolfs RCW, Borger PH, Ramrattan RS, Klaver CCW, Hulsman CAA, Hofman A, Vingerling JR, Hitchings RA, de Jong PTVM. Changing Views on Open-Angle Glaucoma: Definitions and Prevalences — The Rotterdam Study. Invest Ophthalmol Vis Sci. 2000;41(11):3309-3321.
  2. American Academy of Ophthalmology — Primary Open-Angle Glaucoma Suspect Preferred Practice Pattern. aao.org
  3. National Eye Institute (NEI) — Glaucoma. nei.nih.gov
  4. Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) — cbo.com.br

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