Glaucoma e exercício físico: o que manter, o que adaptar e o que evitar
A ficha de inscrição do estúdio tem uma linha que quase ninguém lê com atenção: “possui alguma condição de saúde?”. Você escreve “glaucoma”. A professora lê, pensa um pouco e responde: “então nada de posturas invertidas”. E a musculação que você faz às terças? A natação do fim de semana? A caminhada de todo dia? Ninguém explicou — e fica a dúvida se o mais seguro não seria parar tudo.
Não é. Para quem tem glaucoma, o exercício costuma ser aliado, não ameaça. O que pede ajuste não é o exercício em si, e sim três situações bem específicas: a cabeça abaixo do coração por algum tempo, a força feita com o ar preso e o óculos de natação apertado. Entender por que cada uma mexe com a pressão do olho é o que transforma o “pode ou não pode” em “como fazer”.
Quem tem glaucoma pode fazer exercício físico?
Pode, e na maioria dos casos deve. Atividades aeróbicas como caminhada, corrida leve, bicicleta e natação são recomendadas para quem tem glaucoma. Os cuidados se concentram em posturas de cabeça para baixo (como algumas da yoga), em esforço máximo com a respiração presa e em óculos de natação muito justos. Em glaucoma avançado ou com pressão fora da meta, os limites são combinados caso a caso na consulta.
O lado bom: o que o movimento faz pelo olho com glaucoma
Um estudo publicado na revista Ophthalmology em 2019 colocou acelerômetros em 141 pessoas com glaucoma ou suspeita de glaucoma, com idade média de 65 anos, e cruzou o nível de atividade de cada uma com a velocidade de perda do campo visual ao longo dos anos. Em média, os participantes davam cerca de 5.600 passos por dia. Quem se movimentava mais perdia campo visual mais devagar: cada 5.000 passos diários a mais estiveram associados a uma perda cerca de 10% mais lenta.
O número merece duas ressalvas, que os próprios autores fazem. É um estudo de associação: pode ser que o exercício proteja o nervo, mas também pode ser que quem já está perdendo mais visão acabe se movimentando menos. E o efeito, por pessoa, é modesto. Ainda assim, ele aponta na direção oposta ao medo da ficha do estúdio: ficar parado não é a escolha mais segura para o nervo óptico.
Por que algumas posições sobem a pressão do olho
O líquido que circula dentro do olho precisa sair dele o tempo todo. Depois de passar pelo sistema de drenagem, ele desemboca em pequenas veias na superfície do olho. Essa saída depende de uma diferença de pressão: o líquido só escoa bem se a pressão dentro dessas veias estiver mais baixa do que a de dentro do olho.
Quando a cabeça fica abaixo do nível do coração, o sangue tende a se acumular nas veias da cabeça e do rosto. A pressão nessas veias sobe, a saída do líquido fica mais difícil e a pressão dentro do olho acompanha — em segundos. É uma questão de hidráulica, não de esforço: acontece mesmo numa postura parada e confortável.
Um estudo publicado na revista PLoS One mediu isso em 20 pessoas — 10 com glaucoma de ângulo aberto e 10 sem a doença — durante quatro posturas comuns da yoga, mantidas por dois minutos cada. Todas fizeram a pressão subir já no primeiro minuto. A maior subida veio na postura do cachorro olhando para baixo: de 17 para 28 mmHg, em média, nos olhos com glaucoma. Na flexão em pé para a frente, de 17 para 27 mmHg. Nas posturas em que os olhos ficam mais perto da altura do coração, como a de pernas para cima apoiadas, a subida foi menor, de 17 para 21 mmHg. Em todos os casos, a pressão voltou ao valor inicial em até dois minutos depois de sentar.
O que esse estudo não responde é se essas subidas curtas, repetidas ao longo de anos, aceleram o glaucoma. Os autores deixam a pergunta em aberto. Por isso, o raciocínio clínico aqui é de prudência proporcional: quanto mais baixa a cabeça, por mais tempo e em um nervo com menos reserva, mais sentido faz adaptar.
A força com o ar preso
O segundo mecanismo é outro. Ao levantar uma carga pesada prendendo a respiração, a pressão dentro do tórax e do abdome sobe e dificulta o retorno do sangue da cabeça — a chamada manobra de Valsalva, explicada em detalhe na página sobre pegar peso e fazer esforço. O efeito no olho segue a mesma lógica das veias represadas.
Na prática, o ajuste costuma ser simples: soltar o ar durante a fase de esforço, preferir cargas moderadas com mais repetições a cargas máximas, e ter atenção especial a exercícios que somam as duas coisas — força e cabeça baixa, como alguns abdominais e flexões com os pés elevados.
Da atividade à conduta
| Atividade | O que costuma acontecer com a pressão do olho | O que fazer |
|---|---|---|
| Caminhada, corrida leve, bicicleta, natação, dança | Não sobe; atividade aeróbica regular é recomendada | Manter. É o tipo de exercício que mais se associa a benefício |
| Yoga ou pilates com cabeça abaixo do coração (cachorro olhando para baixo, flexão em pé) | Sobe enquanto a postura dura e volta em poucos minutos | Adaptar: apoiar a testa num bloco ou cadeira para manter a cabeça mais alta, encurtar o tempo, sair devagar |
| Parada de cabeça e parada de ombros | Estão entre as maiores subidas descritas | Evitar, a não ser com liberação específica na consulta |
| Musculação pesada, abdominais e flexões com respiração presa | Pode subir durante o esforço | Expirar no esforço, preferir cargas moderadas, evitar a carga máxima com apneia |
| Natação com óculos pequenos e apertados | Pode subir enquanto o óculos está no rosto | Preferir óculos de área maior ou máscara, sem apertar demais a tira |
| Glaucoma avançado ou pressão acima da meta | O nervo tem menos margem para picos | Rever a rotina de treino com quem acompanha o seu glaucoma |
| Visão embaçada com halos coloridos, dor no olho ou dor de cabeça forte durante ou depois do exercício, que não passa | Pode ser uma subida aguda da pressão | Pare a atividade e fale com a clínica pelo WhatsApp (19) 99193-2057; fora do horário, procure atendimento oftalmológico urgente. Os sinais de crise estão em glaucoma de ângulo fechado |
No caso da natação, há um dado curioso: um estudo publicado no British Journal of Ophthalmology mediu a pressão com os óculos no rosto, através de furos feitos nas lentes, e encontrou uma subida média de 4,5 mmHg, mantida enquanto os óculos estavam colocados. Os modelos de menor área de contato foram os que mais apertaram. As medidas foram feitas fora da água, então o estudo mostra um possível efeito, não um risco comprovado durante o nado.
Quando a resposta muda de pessoa para pessoa
A mesma postura não pesa igual para todos. Três perguntas mudam a conduta. Em que estágio está o glaucoma: um nervo com perda inicial tem mais reserva do que um nervo que já perdeu muitas fibras. A pressão está dentro da meta definida para você, a chamada pressão-alvo, explicada em glaucoma tem cura? E qual é o tipo de glaucoma: existe uma forma, mais comum em adultos jovens com miopia, em que o exercício intenso pode soltar pigmento dentro do olho e embaçar a visão por algumas horas — tema da página sobre glaucoma em jovens.
O que levar para a consulta
A pergunta útil não é “posso fazer exercício?”, e sim “como faço o meu exercício com o olho que tenho hoje?”. Para responder, a consulta precisa saber o que você realmente faz: a modalidade, quantas vezes por semana, as posturas ou aparelhos que mais usa, se treina pesado e se nada com óculos. Se o professor deu alguma orientação, leve também.
A Dra. Flávia Keiko Ichida atua em glaucoma clínico no Instituto de Olhos Campinas, no Cambuí, e cruza essa rotina com o que o exame mostra: a medida da pressão, o aspecto do nervo óptico e o OCT, feitos na própria clínica, comparados ao longo do tempo. A conduta sai dessa combinação — o mesmo cachorro olhando para baixo pode ser mantido para um paciente e adaptado para outro. Ela é formada pela Unesp, com residência em Oftalmologia e fellowship em Catarata e Cirurgia Refrativa, e tem título de especialista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia. Como funciona o acompanhamento está em tratamento de glaucoma em Campinas, e o panorama da doença em glaucoma e diagnóstico precoce.
A linha da ficha
“Possui alguma condição de saúde?” — escrever “glaucoma” naquela linha não precisa encerrar a conversa com o exercício. Precisa só mudar a pergunta: em vez de “posso?”, “como?”. A consulta responde quais posturas manter, quais adaptar e quais deixar de lado para o seu nervo, com o seu estágio e a sua pressão. Aí a próxima ficha de inscrição pode vir com uma linha a mais, e a professora vai saber exatamente o que fazer com ela.
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Perguntas frequentes sobre glaucoma e exercício físico
Tenho só suspeita de glaucoma. Preciso mudar meu treino?
Em geral, não de imediato. Na suspeita, o nervo costuma ter boa reserva, e o mais importante é concluir a investigação e manter o exercício aeróbico. Se você pratica muitas posturas de cabeça para baixo ou faz parada de cabeça com frequência, vale contar na consulta para decidir junto se compensa adaptar já.
Devo medir a pressão do olho logo depois do treino?
Não é necessário como rotina. As subidas causadas por posturas invertidas desaparecem em poucos minutos, então uma medida feita depois do treino não diz muito. O que orienta o tratamento é o comportamento da pressão nas consultas e a estabilidade do nervo e dos exames ao longo do tempo.
Quem já fez cirurgia ou laser para glaucoma pode voltar a treinar?
Na maioria dos casos, sim, mas o prazo e as restrições dependem do procedimento e da cicatrização. A liberação para natação, musculação e posturas invertidas deve vir de quem realizou o procedimento, nas revisões pós-operatórias. Os tipos de cirurgia estão em quando o glaucoma precisa de cirurgia.
Exercício pode substituir o colírio?
Não. A atividade física regular é um bom complemento e pode estar associada a uma evolução mais lenta, mas não controla a pressão do olho de forma contínua nem com a intensidade necessária. Nenhuma mudança de rotina deve levar a reduzir ou suspender o colírio para glaucoma sem orientação médica.
Mergulho com cilindro, escalada e esportes de altitude têm alguma restrição?
São atividades com variações de pressão, esforço intenso e, às vezes, equipamentos que apertam o rosto. Não existe uma regra única para todos com glaucoma. Se você pratica ou pretende começar, leve a pergunta à consulta antes da próxima viagem ou temporada, junto com o estágio do seu glaucoma.
Conteúdo revisado pela Dra. Flávia Keiko Ichida, especialista em Oftalmologia — CRM 111925 / RQE 47907.
Referências
- Lee MJ, Wang J, Friedman DS, Boland MV, De Moraes CG, Ramulu PY. Greater physical activity is associated with slower visual field loss in glaucoma. Ophthalmology. 2019;126(7):958-964. PMID: 30315900
- Jasien JV, Jonas JB, de Moraes CG, Ritch R. Intraocular pressure rise in subjects with and without glaucoma during four common yoga positions. PLoS One. 2015;10(12):e0144505. PMID: 26698309
- Morgan WH, Cunneen TS, Balaratnasingam C, Yu DY. Wearing swimming goggles can elevate intraocular pressure. Br J Ophthalmol. 2008;92(9):1218-1221. PMID: 18621792
- American Academy of Ophthalmology — EyeNet. Glaucoma and Exercise: What to Tell Your Patients. 2019. aao.org
- Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) — cbo.com.br
